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sexta-feira, 11 de maio de 2012

A simplicidade teológica do século XXI


Por Alexandre Luquete
 Na minha modesta opinião, surge um novo fenômeno, o neo-cristianismo. Esses grupos que eram chamados de neo-pentecostais, não se encaixam, de forma alguma em qualquer padrão de cristianismo que eu tenha conhecimento. Logo, precisam de uma nova nomenclatura (pelo menos pra mim).
Conversando com 2 irmãos da minha igreja, ouvi deles a seguinte expressão “não vejo Cristo nem salvação nesses programas de TV”. Não que não haja, há. Mas de forma muito diferente da que é pregada em igrejas históricas com teologias formuladas na época da reforma. Também são diferentes de católicos (romanos, ortodoxos, gregos, russos, cipriotas, etc), seitas apocalípticas… São únicos! Eles pregam um corpo doutrinário que é bençãocentrico. Diferente dos protestantes, que são cristocentricos.
Isso me levou a gastar algumas horas ouvindo mensagens, e muito rapidamente consegui formular uma teologia sistemática desse novo cristianismo. Esse compendio cabe em uma folha de papel, é simples para qualquer pessoa entender, vamos a ele:
Cristo: O mediador entre os homens e a benção.
Benção: todo e qualquer bem material ou físico que você deseje.
Sofrimento: afastamento da benção
Pecado: algo ruim, que te separa da benção.
Oferta: meio para convencer Deus a te abençoar. Também pode ser o caminho entre você e benção.
Apóstolo: O homem que faz a ponte entre o homem e Cristo, único autorizado a receber a oferta das mãos dos fiéis.
Pastor: Um pouco abaixo do apóstolo na hierarquia da igreja, é aquele que diz o que você deve fazer para alcançar a benção.
Bíblia: manual (não autoexplicativo) sobre o modo de conseguir a benção. Também pode ser um punhado de versículos com temas como vitória, benção e jubilo. Observação: não se pode ler mais que um parágrafo de cada vez.
Diabo: aquele que quer te separar da benção.
Demônios: enviados pelo diabo para te impedir de contribuir com a igreja e impedir seu sucesso; uma vez feito isso tentarão destruir sua família, carreira e condição financeira. São a fonte de toda doença, desgraça e tragédia na vida de um indivíduo.
Inferno: Lugar de onde vem o diabo e seus demônios e para onde irão todos aqueles que não conseguem a benção.
Igreja: (1) Desde que seja a certa, o lugar onde você leva a oferta, recebe a benção e volta pra contar depois. (2) Propriedade do seu líder.
Cristãos: (1) Os fiéis que recebem a benção. (2) Os fiéis que ainda vão receber a benção.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

É melhor viver do que conhecer?



Por André R. Fonseca

Muitos defendem que é melhor viver os ensinamentos bíblicos do que conhecer a Bíblia através de estudos teológicos e acadêmicos.

Eu não teria dificuldade alguma em concordar com essa proposta se ela não escondesse uma tentativa de menosprezar o zelo de alguns pelo conhecimento acadêmico do conteúdo bíblico. Quem vai para o seminário ou faz investimento em dinheiro e tempo por conta própria para estudar geografia bíblica, teologia sistemática/bíblica, etc., acaba sendo discriminado sem motivo.

Puro preconceito! Dizer que é preciso “ter vida com Deus” é o argumento mais apelativo dos ignorantes. Quem pode medir “a vida com Deus” do crente? Não é possível, graças a Deus, medir a espiritualidade de cada pessoa na igreja; se fosse possível, seria difícil esconder-se por trás de falsa religiosidade... Se quem estuda é acusado em não apresentar um ou muitos elementos do fruto do Espírito como medida dessa espiritualidade esperada com sua “vida com Deus”, eu pergunto: Estamos em uma disputa por produção de fruto? Alguém está em condição de gabar-se por santidade maior do que a de outro irmão qualquer? Somos biblicamente recomendados a medir os outros pela nossa medida? Somos recomendados a tomar quais medidas quando nos deparamos com as fraquezas dos irmãos? Se o irmão que estuda e busca conhecimento não apresenta algum fruto que você julga ser sinal de falta de “vida com Deus”, olhe primeiro para a sua própria vida e veja se você tem condições de fazer esse julgamento.

O anti-intelectualismo é como uma catarata da visão espiritual, que vai cegando o crente aos poucos, transformando as verdades cristalinas do evangelho em imagens cada vez mais opacas e indiscerníveis... Quem não se aprofunda no conhecimento paralelo ao conhecimento bíblico não tem condições de apreciar as riquezas mais escondidas da Bíblia! Não está impossibilitado de viver plenamente o evangelho, não será por isso um crente de segunda categoria, mas perde em muita coisa na compreensão do que a Bíblia tem para nos ensinar.

Qual seria a sua perda se você não soubesse ler? A mínima deficiência na leitura pode causar prejuízos irreparáveis. Vale lembrar-se daquele homem casado que considerou ter um caso com a mulher de um membro de sua igreja porque leu incorretamente na Bíblia uma ordem para adulterar. Se a deficiência na leitura do texto em sua língua causa perda de compreensão com implicações em sua “vida com Deus”, por que julgar quem se esmera para ler bem a Bíblia em sua própria língua? Ou nas línguas originais? Por que isso faz alguém ser menos santo, ou ter menos “vida com Deus”? Se minha dedicação resulta em melhor compreensão do que Deus espera de mim, minha “vida com Deus” está mais próxima possível de Seus preceitos revelados na Palavra. Portanto, o pensamento deveria ser o contrário do que comumente nos deparamos nas igrejas: Viver é melhor do que conhecer a Bíblia...

Eu não teria dificuldade algum em concordar com essa proposta do “viver é melhor do que conhecer” se essa proposta não fosse impossível e contrária ao ensinamento bíblico! Se é impossível conhecer a Deus sem que Ele se revele ao homem, como eu poderia “ter vida com Deus” sem antes conhecê-lO bem pela leitura e estudo do que Ele revelou? Como poderia obedecer a um mandamento sem antes conhecer e entender o que o mandamento exige de mim?

Os deuses eram difíceis de agradar. Saber como aplacar a ira dos deuses era um desafio, quem poderia saber o que os deuses queriam? O grande louvor de todo Israel pela Lei estava baseada nesta graça de ter a Lei do SENHOR escrita para ser estudada e conhecida. Conhecer exatamente o que Deus esperava de cada um dos seus era uma dádiva! Saber como levar uma vida justa diante de Deus não tem preço!

A lei do SENHOR é perfeita e nos dá novas forças. Os seus conselhos merecem confiança e dão sabedoria às pessoas simples. Os ensinos do SENHOR são certos e alegram o coração. Os seus ensinamentos são claros e iluminam a nossa mente. O temor ao SENHOR é bom e dura para sempre. Os seus julgamentos são justos e sempre se baseiam na verdade. Os seus ensinos são mais preciosos do que o ouro, até mesmo do que muito ouro fino. São mais doces do que o mel, mais doces até do que o mel mais puro. Senhor, os teus ensinamentos dão sabedoria a mim, teu servo, e eu sou recompensado quando lhes obedeço. Salmo 19:7-11

Que valor haveria na Lei se ela não fosse clara e compreensível? Como seria possível obedecer a Lei e fazer a vontade de Deus sem entender o que Ele revelou? Como posso “ter vida com Deus” sem conhecer e entender os Seus preceitos? Como pode ser melhor viver aquilo que não conheço e não entendo? Cristo não criticou a falha dos saduceus em não conhecer as Sagradas Escrituras? Você acha que esse “conhecer” era um “decorar”, ou apenas “ler”, ou “entender”?
Mas, André, o testemunho bíblico é que os seus leitores apenas meditavam e guardavam a Palavra em seus corações, e isso basta. Bem, meu irmão, bastava para eles! A Bíblia foi escrita na língua deles, na época deles, na cultura deles.

Hoje, precisamos nos esforçar um pouco mais para compreender o que tudo isso significava no contexto deles para não abrir a boca e falar besteira, ensinar errado e ainda correr o risco de não só errar o caminho na sua caminha de “vida com Deus”, mas também arrastar alguns com você!

Autor: André R. Fonseca
www.andrerfonseca.com
Twitter: @andreRfonseca
Fonte da imagem: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Law-books.jpg
Fonte: [ Teologia et cetera ] 
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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Nossa sutil hipocrisia

Emil Brunner disse certa vez que, em sua caminhada histórica, a igreja oriunda da Reforma procura automaticamente o engessamento de uma crescente e perene institucionalização, matando o caráter orgânico, vivo e livre da igreja. Brunner identifica o início da institucionalização da igreja quando o apóstolo Paulo normatiza o sacramento da Ceia em 1 Coríntios 11. Discordo do teólogo, pois creio que a semente dessa institucionalização é bem anterior, e pode ser encontrada nos embates travados entre os fariseus e o Crucificado.

Nesses embates, os fariseus, que eram professores da Lei, e que deveriam, por dever de ofício, conhecer as Escrituras, as negam ao reclamarem contra a terrível falha de Jesus em curar num sábado. “Era só o que faltava!”, diziam eles. Em sua sutil hipocrisia, os fariseus da época de Jesus ficavam chateados com a falta de modos do Senhor, que comia sem lavar as mãos, mas não se importaram em corromper um processo jurídico contra ele, ao comprar testemunhas e permitir correr o julgamento no Sinédrio à noite, o que era ilegal à época.

Hoje em dia, a igreja dita evangélica cada vez mais se engessa em seu institucionalismo ensimesmado, se aproximando do sistema religioso farisaico, cada vez mais se distancia da pura fonte de conhecimento de Deus, ou teologia, que é Jesus, e cada vez mais vivencia uma hipocrisia de modo sutil.

Enchemos a boca ao afirmarmos que nossa salvação é pela graça, mas enchemos as pessoas de cargos, sobrecargos e obrigações, que devem ser desempenhados sem pestanejar, para provar que é “um dos nossos” e merecedor da salvação.

Nos alegramos, e até mesmo nos orgulhamos, de nossa herança reformada. Mas, se é verdade que muitos arminianos oram como calvinistas (“Se for da tua vontade, Senhor...”), também é verdade que muitos calvinistas vivem sua vida como perfeitos agnósticos. Afinal, Deus é distante, intangível, inalcançável, portanto vou viver minha vida do meu jeito, sem me importar com isso.

Prezamos a família. Há até ministérios voltados para ela, e grande volume de literatura especializada no tema. Mas o número de divórcios aumenta, a quantidade de maus-tratos contra crianças se torna assustadora (sem contar os casos de abuso sexual cometidos dentro de famílias evangélicas, por pais, tios, avós ou padrastos), cada vez mais desordens de ordem sexual se tornam presentes, sem que isso seja tratado com coragem, discrição e amor. E sem falar também que, de todas as famílias da igreja, a do pastor é a mais penalizada.

Há muitas camisetas e adesivos de carro que dizem “Jesus te ama”, “Deus é amor”, mas somos frios, distantes, individualistas e cruéis. Não conseguimos expressar esse amor ao homossexual, ao alcoólatra, ao mendigo. Ou ao crente da igreja com uma teologia diferente da nossa, ou mesmo ao católico.

Aliás, somos muito ciosos em relação à pureza da nossa devoção. Falamos contra a crescente mariolatria, como bem apontou Hans Küng, mas temos nossos ídolos, nossos pequenos deuses, nossos altares de adoração abjeta. Enquanto muitos católicos adoram uma figura bíblica que foi instrumento da ação de Deus na história, muitos de nós adoramos homens sem escrúpulo, sem caráter e com uma enorme voracidade por fama, poder e dinheiro. Talvez até mesmo por nos espelharmos neles.

Prezamos a transparência, reclamamos até mesmo disso em relação aos governos. Mas não sabemos o que fazer com aqueles que decidem abrir seus corações, expondo suas fraquezas e sua dependência de Deus. Em um tempo de cultivo de heróis gospel, não soa bem se mostrar frágil.

Prezamos o papel de líder, enquanto Jesus prezava a atitude de servo. Prezamos a vitória e a intrepidez, mas Jesus morreu como um bandido fora da cidade santa, abandonado por todos. Nos espelhamos na esperteza relatada em livros sobre liderança, mas Jesus nos incita à simplicidade infantil. Buscamos metodologias para a igreja crescer, mas nos esquecemos que quem enche a igreja é o Espírito, e qualquer outro crescimento produzido fora dele é puro inchaço.

Em tempos em que as técnicas ditam as normas (como bem disse Won Sul Lee), é anacrônico ser fiel a alguém que não se vê e que nem sempre responde como queremos. Mas somos chamados a este anacronismo, somos chamados para vivermos, como diz o antigo hino, para o Deus dos antigos, o Deus que nos limpa por dentro e nos remove a sutil hipocrisia dos fariseus modernos. O Deus que nos quer íntegros e transparentes. O Deus que nos quer santos.

Autor: Rev. Rodrigo de Lima Ferreira
Fonte: [ Ultimato ]

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Reflexões sobre o teísmo e a cosmovisão cristã

Por João Rodrigo Weronka

A necessidade de cada cristão ter em mente a definição e entendimento da cosmovisão cristã é muito importante, já que a cada dia somos bombardeados por conceitos, filosofias e ideologias extremamente anticristãs. Sabendo que cosmovisão representa a forma como cada indivíduo observa o mundo ao seu redor, discernir “o todo” de acordo com a cosmovisão cristã é essencial.

Existe uma manobra contra a cosmovisão cristã que vai além da paranóia vivida por alguns crentes em seu dia-a-dia, que acreditam mais em teorias de conspiração contra a igreja do que crêem na soberania absoluta e irrestrita de Deus. A igreja deve estar mais alerta com uma severa mudança de cultura que está forçando a mentalidade pós-cristã na sociedade, que começou na modernidade e que hoje, num ambiente pós-moderno ainda vigora.

Para que cada indivíduo que confessa ser cristão possa de fato ser denominado cristão, é necessário que este pense e aja como cristão. Já disseram que a igreja brasileira é muito mais propensa a sentir do que a pensar, e concordo plenamente com tal ponto de vista por tudo aquilo que o cenário evangélico apresenta.

O fato de muitos cristãos ficarem chocados com algumas vozes que tem se manifestado nos arraiais tupiniquins é impressionante. A maioria não está disposta ao labor teológico e a análise daquilo que crê. Poucos estão interessados na reflexão sobre temas pertinentes – ou não – à fé cristã. Isso nada mais é que o modo relativista de pensar que se infiltrou na cultura cristã e que faz com que, em estado de transe, muitos ignorem o fator da veracidade dos fatos. O ranço do pragmatismo grudou na mentalidade de muitos, ao ponto de perderem sua identidade bíblica e desvirtuar sua cosmovisão, trocando o cristianismo bíblico e autêntico por uma religião sincretista e estranha.

Vivemos hoje a época do Censo do IBGE (2010), e infelizmente a maior parte da igreja brasileira está em frenesi pelo resultado a ser divulgado, para saber se de fato os números mostrarão que o ‘povo de Deus’ tem crescido nesta terra. Não sou contra o crescimento da igreja, isso seria contraditório. Quero ver muitas pessoas rendidas aos pés de Cristo e inseridas de fato no Reino de Deus, mas que cresçam não apenas em números, mas principalmente em qualidade.

Gostaria de ver toda essa expectativa sendo lançada de modo mais reflexivo. Se nós, como igreja, nos engajarmos e percebemos que existe a formação de uma barreira contra a cosmovisão cristã, creio que teremos resultados mais positivos, que passam do mero conceito quantitativo e adentram o valor qualitativo do povo de Deus. E qualidade sim é relevante.

Isso mostra de modo preocupante que a igreja atual está falhando em sua característica de ser “ensinadora” para se tornar uma espécie de clínica psicológica de auto-ajuda e um armazém de satisfação momentânea: “Venha buscar a sua benção”, é o slogan padrão de uma fé puramente mercantilista. [1]

Falando de modo mais específico sobre a cosmovisão cristã, entendemos que o modo de enxergar a realidade sob os pressupostos do cristianismo bíblico é o mais coerente, pois apresentam de modo objetivo respostas para perguntas que sempre estão presentes no cotidiano das pessoas, tais quais: quem somos nós? Por que estamos aqui? De onde viemos e para onde vamos? Qual o objetivo da vida? Ou ainda, como C. Stephen Evans propõem de modo mais amplo:

“Uma cosmovisão completa inclui respostas às seguintes perguntas e a mais outras ainda: Que tipos de realidades existem, e qual é a realidade última? Que explicação se pode dar acerca da realidade? Que é conhecimento, e como obtê-lo? Que é ter uma crença razoável ou justificada? Que é o bem? Que é uma vida boa para o ser humano e como se conquista essa vida? Que é beleza e como ela se relaciona com a realidade e a bondade?” [2]

Todas estas perguntas possuem respostas objetivas dentro da fé cristã, e tais respostas estão norteadas pelo princípio que existe uma Verdade Absoluta.

Não é de hoje que pensadores cristãos trabalham na sistematização de idéias para apresentar a fé cristã de modo organizado e racional. A história do pensamento cristão está repleta de homens que demonstraram a coerência racional do cristianismo, sem abandonar o calor da fé. Como sempre afirmo: fé e razão não se opõem, mas são complementares e interdependentes. Pensar sobre a fé é algo que a igreja precisa resgatar nestes dias encharcados com a mentalidade anticristã. Creio que Robson Ramos definiu bem o panorama antirreflexivo instaurado:

“Por que nos preocuparmos com um embasamento teológico e filosófico mais profundo? Por que falarmos da importância da ‘mente cristã’? Precisamente em benefício daquilo que chamamos de ‘coração’. Como podemos amar e servir a Deus se não nos aplicamos a compreender os seus desígnios? Se o caráter e a criação de Deus permanecem como um enigma para nós, então todo o nosso zelo, nossas orações e nossos Louvorzões caem como devoção cega. Nossa religiosidade se degenera em superstição e a nossa liturgia se transforma em encantamento.” [3]

Neste breve ensaio, não vamos nos ater a exposição detalhada das doutrinas básicas da fé cristã, já que existe variado número de Teologias Sistemáticas e outras obras que cumprem bem este papel. O objetivo central é chamar a igreja brasileira – os crentes que a compõem – para um retorno aos fundamentos. Estes fundamentos são essenciais à fé cristã, e nosso objetivo é que toda e qualquer pessoa que não tenha a cosmovisão cristã entenda este plano e seja alcançada pela misericórdia de Deus.



TEÍSMO

O cristianismo é uma manifestação religiosa teísta. É importante ressaltar que além do cristianismo, o judaísmo e islamismo também são considerados como religiões teístas, entretanto divergem entre si de modo excludente nos aspectos doutrinários.

Creio que o modo como John Feinberg resumiu o teísmo é de grande valor para o contexto deste artigo, dizendo que o teísmo:

“É literalmente, a fé na existência de Deus. Embora o conceito pareça ser tão antigo quanto a filosofia, o termo propriamente dito parece ser de origem relativamente recente. Alguns sugerem que apareceu na Inglaterra no século XVII para substituir palavras como ‘deísmo’ e ‘deísta’ para referir-se a crença em Deus. ‘Teísmo’ costuma ser usado como oposto do ‘ateísmo’, que é o termo que descreve a negação da existência de Deus, e que distingue o teísta do ateu ou do agnóstico sem tentar fazer qualquer conexão técnica filosófica ou teológica”. [4]

O teísmo está organizado em diversos sistemas que, filosoficamente, abordam a existência de Deus de modos variados. Destacam-se os sistemas teístas racionais, existenciais, fenomenológicos, analíticos, empíricos, idealistas e pragmáticos. Cada qual com representantes de grande envergadura.

De modo geral, os teístas possuem crenças comuns, as quais são possíveis destacar: a existência de Deus além e dentro do mundo, a criação do mundo a partir do nada (ex nihilo), a possibilidade real de milagres, a criação da humanidade à imagem de Deus, o padrão legislador moral de Deus e a eternidade de castigos ou recompensas. [5]

Entendendo de modo básico o que o teísmo contempla, é preciso buscar o entendimento da Verdade cristã nos fundamentos básicos da fé, que por conseqüência norteiam a cosmovisão cristã.



FUNDAMENTOS CRISTÃOS

O cristianismo, como cosmovisão teísta que é, crê exclusivamente na existência de um único Deus (Dt 6.4). Cremos que esse Deus é pessoal, ou seja, está disposto e interessado num relacionamento próximo e íntimo com as pessoas (Rm 8.15).

Esse Deus, cujos atributos são infinitos e impossíveis de serem compreendidos na limitação humana, é entendido pelos cristãos como onipresente (Jr 23.23; Sl 139.7-13), onisciente (Sl 139.1-5; Pv 5.21), onipotente (Ap 19.6), imutável (Ml 3.6; Tg 1.17), amoroso (Jo 3.16), misericordioso (Lm 3.22), tal como as Escrituras mostram. Tal Deus é triúno, onde as Escrituras O apresentam como Pai, Filho e Espírito Santo (Mt 28.19). Deus não pode ser “posto numa caixinha”, ao ponto de, como nossa limitação e capacidade finita, compreender em plenitude sua natureza perfeita e infinita (Is 40.28).

Deus criou todas as coisas ex nihilo, ou seja, do nada (Gn 1.1). Não precisou de matéria preexistente nem de auxílio algum para a criação de tudo, quer seja galáxias distantes ou microorganismos que vivem sobre nossa própria pele. Ao poder de Sua palavra, tudo veio a existir com um propósito perfeito, ou seja, para os cristãos é inaceitável o conceito de que somos frutos do acaso, resultado do acaso e destinados ao acaso. Uma roda viva tola e sem sentido.

Como obra-prima, a criação de Deus perfeita culminou na criação da humanidade, com toque especial do Senhor para tal (Gn 1.27). Fruto da desobediência humana, a transgressão levou o homem ao estado de pecador (Gn 3.1-12). O pecado causa separação entre Deus e o homem (Is 59.2). Deus providenciou um meio de resgate para que o homem tivesse acesso a Ele novamente; essa providência divina se deu em Jesus Cristo (Rm 5.1-21).

Deus, no estado atual das coisas, relaciona-se com sua criação de modo especial, estando imanente e transcendente a ela (Mt 28.20). Enquanto vivemos aqui, não estamos órfãos, mas o Espírito Santo atua como o Consolador prometido (Jo 14.16-18), zelando dos que são de Deus e trazendo convencimento do pecado, justiça e juízo.

Não fomos lançados por Deus a uma existência qualquer sem propósitos, assim como Deus não criou o mundo e o que nele há e deixou tudo andar sem seu consentimento.

Redimidos e justificados, os filhos de Deus tem acesso ao Pai. A experiência de vida cristã temporal é apenas uma amostra daquilo que os insondáveis planos de Deus tem para os que crêem nEle: a eternidade de relacionamento sem a separação que o pecado causou, restaurando por completo o propósito bendito e perfeito de Deus para todas as coisas (Ap 22.1-5).



APOSTA DE PASCAL

O que para os cristãos é fundamento de fé e essência de cosmovisão, para muitos é loucura (1Co 1.18-23). Cremos sim nas Escrituras como Palavra de Deus revelada aos homens e nos propósitos de Deus nela contidos, apesar das críticas e das inversões de valores que a sociedade pós-moderna tenta importar a fórceps.

Muitos rejeitam a cosmovisão cristã, julgando segundo pressupostos diversos que ela não é digna de crédito.

Para tais, deixo uma simples reflexão a respeito da conclusão que uma mente brilhante expôs. Blaise Pascal (1623-1662), filósofo, matemático e físico francês, desenvolveu um simples argumento que muitos desconhecem, mas que é muito útil. Trata-se da “Aposta de Pascal” ou “Argumento da Aposta”.

Tal argumento encoraja aquele que não crê a refletir e orar no seguinte sentido: se alguém aposta que Deus existe e dedica sua vida a Ele, mas hipoteticamente está errado, não perdeu absolutamente nada, pois terá perdido apenas o desfrutar de uma vida de prazer voltada para satisfação pessoal, não encontrando absolutamente nada após a morte. Doutra forma, se sua aposta está correta, desfrutará de uma eternidade de bem-aventuranças, pois descobrirá uma realidade surpreendente após a morte.

Em resumo, os ganhos e perdas potenciais de tal aposta são incrivelmente desproporcionais.



PALAVRAS ÚLTIMAS

Ter a cosmovisão cristã bem alinhada é algo que urge para esse tempo em que os cristãos devem estar mais engajados pela causa de sua fé, que nada mais é que a centralidade de Jesus Cristo para tudo.

Não encontrei melhores palavras para concluir este ensaio que as de John Stott, um exemplo de fé viva e mente brilhante. Leia e reflita:

“Por que sou cristão? Uma razão é a cruz de Cristo. Na verdade, eu jamais poderia crer em Deus se não fosse pela cruz. É a cruz que dá credibilidade a Deus. O único Deus em quem eu creio é aquele que Nietzsche, filósofo alemão do século 19, ridicularizou, chamando-o de ‘Deus sobre a cruz’. No mundo real da dor, como adorar um Deus que fosse imune a ela? Em minhas viagens, entrei em vários templos budistas em diferentes países da Ásia. Permaneci neles em atitude respeitosa diante de uma estátua de Buda, que tinha as pernas cruzadas, os braços dourados, os olhos fechados, o fantasma de um sorriso nos lábios, sereno e silencioso, com um olhar distante na face, desligado das agonias do mundo. Em cada uma dessas vezes, depois de um tempo eu tinha de dar as costas. E, em minha imaginação, voltava-me para aquela figura solitária, retorcida, torturada sobre a cruz, com pregos lhe atravessando as mãos e os pés, com as costas dilaceradas, distendidas, a testa sangrando nos pontos perfurados por espinhos, a boca seca, sedenta ao extremo, mergulhada na escuridão do esquecimento de Deus. O crucificado é Deus por mim! Ele colocou de lado a sua imunidade para sentir a dor. Ele entrou em nosso mundo de carne e sangue, lágrimas e morte. Ele sofreu por nós, morrendo em nosso lugar, a fim de que pudéssemos ser perdoados”. [6]

Não se engane, não faça uso de lentes erradas para interpretar a realidade e principalmente pelas implicações que “óculos errados” podem causar.

Concordo que existem pontos diversos para discutir, e que tal discussão ainda será ampliada na medida nos textos futuros desta série sobre as cosmovisões. Mas sempre faremos uso das lentes cristãs – que correspondem com a Verdade que é Cristo – para tal análise.

Toda honra e glória ao Senhor!

Notas:

[1] Isso não quer dizer que o aconselhamento cristão é desnecessário, muito pelo contrário. O aconselhamento é necessário desde que seja pautado na Bíblia Sagrada. O aconselhamento deve ser feito por crentes maduros, preparados na Palavra e chamados para tal. Fugindo deste parâmetro básico, o aconselhamento pode ser transformar numa trágica fábrica de fofocas e destruição moral do aconselhado.

[2] EVANS, C. Stephen. Dicionário de Apologética e Filosofia da Religião. São Paulo: Editora Vida, 2004. p. 36-37.

[3] RAMOS, Robson. Evangelização no mercado pós-moderno. Viçosa: Editora Ultimato, 2003. p.29-30.

[4] FEINBERG, John S. Teísmo. In Enciclopédia histórico-teológica da igreja cristã, vol.III. São Paulo: Edições Vida Nova, 1990. p. 435

[5] Para aprofundamento, sugiro a leitura de GEISLER, Norman. Enciclopédia de apologética. São Paulo: Vida, 2002. P.813-814, verbete “Teísmo”.

[6] STOTT, John. Por que sou cristão? Viçosa: Editora Ultimato, 2004. p.67-68.


Fonte: http://napec.wordpress.com/apologetica/cosmoteismo/ - NAPEC-Apologética Cristã

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

É certo levantar as mãos na hora do louvor?


Se o Senhor deseja que o louvor seja oferecido em espírito e em verdade (João 4.24), por que tantos crentes acham necessário usar as mãos, os braços e movimentos corporais para “entrar no ritmo de adoração”? Por que esta insistência em obter uma dimensão física, a qualquer custo? Mas a Bíblia não dá base para levantarmos as mãos? Existem várias referências nos salmos e uma no Novo Testamento, mas estas referências não dizem respeito ao culto congregacional, conforme mostraremos, e são tiradas do contexto por ensinadores carismáticos. Não é possível que o Senhor exija o levantar as mãos em sua igreja, em contradição à sua regra “em espírito e em verdade”.


Por que Davi levantava a suas mãos, conforme relatamos nos salmos? O que significava sua atitude? Salmos 28.2 afirma: “Ouve-me as vozes súplices a ti clamar por socorro, quando erguer as mãos para o santuário”. Davi estava longe de Jerusalém, provavelmente fugindo de Absalão. Em sua vocação pessoal, Davi levantava suas mãos em direção ao lugar do sacrifício em Jerusalém. Ele fazia isso com o objetivo de se identificar com o sacrifício oferecido pelo sacerdote. Davi não podia estar presente, mas demonstrava sua identificação com a oferta. É importante lembrar que ele não teria feito isso, se estivesse em Jerusalém, visto que apenas o sacerdote oferecia sacrifício. Assim, a atitude de Davi era apenas um ato de identificação da parte de um homem ausente. Isso não era algo realizado habitualmente na adoração.


Em salmos 63.4, Davi disse: Em teu nome, levanto as mãos”. Nesta ocasião, ele estava no deserto de Judá e, novamente, sozinho, longe do lugar do sacrifício. Davi almejava estar no santuário; e isso é expresso no verso 2. No momento do sacrifício, ele levantou mais uma vez as mãos para identificar-se com a oferta da noite.


Em salmos 141.2, Davi é bastante claro no que se refere ao assunto. Estando novamente longe do Tabernáculo, ele roga que sua oferta suba como incenso e: “Seja o erguer das minhas mãos como oferenda vespertina”.


Quando estava longe do Tabernáculo, era por meio desta atitude que Davi expressava sua unidade com o sacrifício vespertino. Sua atitude não era uma atividade congregacional, e sim um gesto pessoal que tinha um significado específico e limitado. A questão é: devemos fazer o mesmo? É claro que não, visto que os sacrifícios já se consumaram. Jesus Cristo cumpriu todas as leis e símbolos envolvidos nos sacrifícios; e o sacrifício vespertino não é mais oferecido. Esta é a razão porque não encontramos no Novo Testamento instruções a respeito de levantar literalmente as mãos durante o louvor. Levantar as mãos (da maneira como Davi fez) reavivaria o ritual envolvido nos sacrifícios, menosprezando o grande sacrifício oferecido uma vez por todas, a morte expiatória de Jesus Cristo.


Hoje, quando pessoas levantam as mãos, elas não fazem como Davi, para identificarem-se com o sacrifício. Elas fazem com um propósito completamente diferente, ou seja, obter um sentimento de “contato” com Deus. É um recurso físico para produzir sentimentos. Esse não era o propósito de Davi.


Três outros salmos mencionam o levantar as mãos, mas se referem a outras questões. Salmos 119.48 fala em levantar as mãos em obediência diária a Deus – tão somente como refere-se aos sacerdotes oferecendo literalmente o sacrifício. Salmos 143.6 descreve a Davi estendendo figurativamente (e não de modo literal) as mãos a Deus, como uma criança indefesa tenta alcançar sua mãe.


Quando Paulo (1Timóteo 2.8) exortou os crentes a orarem “levantando mãos santas”, ele sem dúvida falava em linguagem figurada. Oferecer a Deus “mãos puras” num sentido literal, como crianças que mostram aos pais que lavaram as mãos antes da refeição, seria um absurdo. As mãos representam nossos feitos, e Paulo quer dizer que devemos nos esforçar por santidade, antes de orarmos. A ilustração mais semelhante está em Salmos 24.3-4: “Quem subirá ao monte do SENHOR? Quem há de permanecer no seu santo lugar? O que é limpo de mãos e puro de coração.”


Levantar as mãos é apenas outro exemplo de atividade carismática fundamentada no uso superficial, e talvez ridículo, dos textos bíblicos. Do modo como é feito em nossos dias, levantar as mãos é um artifício humano sem base bíblica e tem o propósito de ajudar as pessoas a entrarem num estado quase místico de emoções estimuladas. Isto é feito em desafio ao princípio “em espírito e em verdade”. Portanto, em vez de promover o louvor ao Senhor, induz as pessoas ao emocionalismo auto-indulgente. Muitos crentes sinceros são mal orientados e aceitam essa prática como algo útil ao senso de comunhão, mas, na verdade, ela é um obstáculo, uma vez que encoraja o uso das emoções em nível humano, e não em um nível espiritual.


Fonte: Livro: "Louvor em Crise" (Perter Masters), resumo e adaptação para o blog: Rev. Ronaldo P Mendes, título original: “Por que levantar as mãos?”
Extraído do blog: [ Solus Christus ]

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Desculpa, Chico Xavier

Marcelo Lemos



Uma grande controvérsia tem movimentado os bastidores do Espiritismo no Brasil: Seria Chico Xavier a reencarnação de Allan Kardec, o ‘grande codificador’ de Lyon? De um lado há o grupo que acredita na tese e, de outro, como em toda controvérsia, aqueles que a negam. Entre os grupos, e mesmo dentre eles, estão os moderados que erguem voz para alertar do perigo de perderem o foco com discussão tão inútil.

Virtualmente ignorante à discussão a que nos referimos, a grande massa segue sendo bombardeada com propaganda espírita por todos os lados. A Rede Globo, por exemplo, parece ter escolhido 2010 como o “Ano do Espiritismo” - a começar pela novela ‘Escrito nas Estrelas’, de Elizabeth Jhin, e a estreante mini-série A Cura, de João Emanuel Carneiro, estrelada por Selton Melo. A história, em nove capítulos, com formato de série americana, conta a história de um médico acusado de matar um colega, e que descobre que tem poder de curar as pessoas através de cirurgias espirituais... O autor declarou em entrevista que a história sobre um curandeiro é algo que sempre quis fazer, pois “é uma forma de abordar o sobrenatural de uma forma bem brasileira”.

Nunca a espiritualidade esteve tão em alta, que os cinemas brasileiros não me deixem mentir. O filme “Chico Xavier”, segundo a Folha de S. Paulo, só na semana de estréia, em Abril, arrastou para frente da telona nada menos que 590 mil pessoas. Desde então, mais de 3 milhões de pessoas já assistiram ao filme. Deu um verdadeiro olé em cima do tão aclamado “Lula, filho do Brasil”, que na estréia se contentou com 220 mil espectadores, e ficou muito perto de “Avatar”, superprodução americana, que atingiu perto de 800 mil espectadores na semana de estréia no Brasil.

Seja na tela do cinema, seja na tela da TV, o fato é que o espiritismo anda em alta ultimamente. Sem pesquisar muito, só citando o que podemos lembrar num segundo, ao menos quatro dos mais bem-sucedidos seriados americanos trazem conteúdo espírita: Cold Case; Supernatural, Médium e Ghost Whisperer. A fórmula parece ir tão bem nos índices de audiência que até seriados mais ‘sérios’, como Grey’s Anatomy, andam flertando com o ‘outro mundo’. Na segunda temporada da série, Meredith Grey, personagem principal da história, fica entre a vida e a morte, e numa EQM, experiência de quase morte, encontra-se com inúmeros falecidos, incluindo um grande amor... Seriam as visões de Grey, apenas reações químicas do cérebro inconsciente? Seriam experiências reais com o sobrenatural? Os autores deixam ao telespectador o sabor de julgar.

Ainda que o risco de alguém vir a se tornar espírita por influencia de qualquer destas obras seja questionável, é de bom juízo, e do dever cristão, conhecer mais de perto o que a Doutrina Espírita pretende ensinar. Tal conhecimento não apenas nos protege de contaminação, como também nos serve de ferramenta na hora de comunicar o Evangelho da Graça àqueles que estejam seduzidos, em maior ou menor grau, por tal filosofia religiosa – e não são poucos, como podemos supor pelos dados acima.

Indo direto ao ponto, e sem pedir desculpas pelo que será dito, o Espiritismo é uma filosofia absolutamente anticristã. Certamente vão chover protestos contra esta afirmação, até porque, os espíritas definem-se a si mesmos como “cristãos”. Na verdade, vão ainda mais longe, ao afirmarem que sua filosofia seria uma mais elevada revelação da mensagem de Jesus. Todavia, basta um breve olhar para se perceber o quanto a Doutrina Espírita contradiz a Mensagem do Cristo.

Para provar este ponto, destaco a forma antibíblica como eles se valem do termo “expiação” – o que nos levará diretamente a outro dogma espírita, a reencarnação. Todo cristão sabe – ou deveria saber – que o termo “expiação” vem lá do Antigo Testamento, quando o povo hebreu foi ordenado a oferecer sacrifícios por seus pecados. Havendo cometido pecado, o homem ofertava a Deus um animal inocente que, tendo seu sangue derramado, expiava a ofensa do pecador, tornado este novamente aceitável a Deus.


“E quando o pecado que cometeram for conhecido, então a congregação oferecerá um novilho, por expiação do pecado...” – Levítico 4.14.


O sacrifício de uma vitima inocente realizava a expiação pelo pecado do transgressor. Este é o conceito bíblico de expiação; evidentemente, tal conceito de expiação se aplica a Obra Expiatória realizada pelo Cristo, nosso Senhor e Deus. Tal realidade já se prefigurava desde os tempos proféticos, e é belissimamente sumarizada no poema de Isaías:


“Seguramente Ele tomou sobre Si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre Si; nós O reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho. Porém o Senhor fez cair sobre Ele a iniqüidade de nós todos” – Isaías 53.4-6.

No entanto, nada disso se aplica a teoria espírita sobre a expiação. No espiritismo não existe salvação por Graça, muito pelo contrário, ali a salvação deve ser buscada a duras penas, como recompensa pelas boas ações dos homens. É bem honesta a forma como um dos espíritos guia de Allan Kardec descreve o mundo imaginado pelo Espiritismo: um purgatório! “Quase sempre, na Terra é que fazeis o vosso purgatório e que Deus vos obriga a expiar as vossas faltas” (Livro dos Espíritos, versão digital).

Não existe perdão no Espiritismo, portanto, ali não se fala em Graça Salvadora. O homem, segundo os espíritos guia do kardecismo, não é salvo pela Graça de Cristo, mas por si mesmo. E, neste mundo-purgatório, os homens, através do sofrimento e das boas ações, vão purificando-se, pagando a Deus o que Lhe devem, e alcançando um degrau a mais na evolução espiritual. Mas, como nem sempre dá tempo de pagar todas as dívidas numa única existência, o homem se vê obrigado a reencarnar inúmeras vezes – até que pague o último centavo de sua dívida!


“Um senhor, que tenha sido de grande crueldade para os seus escravos, poderá, por sua vez, tornar-se escravo e sofrer os maus tratos que infligiu a seus semelhantes. Um, que em certa época exerceu o mando, pode, em nova existência, ter que obedecer aos que se curvaram ante a sua vontade. Ser-lhe-á isso uma expiação, que Deus lhe imponha, se ele abusou do seu poder. Também um bom Espírito pode querer encarnar no seio daquelas raças, ocupando posição influente, para fazê-las progredir. Em tal caso, desempenha uma missão” Livro dos Espíritos, versão digital

O Espiritismo não é cristão!

Cristo, a Vítima Inocente, é quem realizou uma perfeita Expiação pelos nossos pecados. Não por menos ser posto como doutrina fundamental da fé cristã uma ‘salvação por graça’, como bem expressa o Santo Apóstolo: “... sendo justificados livremente pela Sua graça, pela redenção que está em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs para ser uma propiciação, pela fé no Seu sangue, para demonstração da Sua justiça, pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para a demonstração da Sua justiça, pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para a demonstração, digo, da Sua justiça neste tempo presente, para que Ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Romanos 3:24-25).

E se acrescente Efésios 2.4-9: “Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus; para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie”.

Nossa Redenção encontra-se em Cristo justamente pelo fato de que ele “se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave” (Efésios 5.2). Não reencontramos nosso lugar ao lado de Deus por méritos pessoais, antes, pela Graça de Deus, a qual, por meio de Cristo, nos reconcilia consigo. Este é o ensino de todo o Novo Testamento. “... Cristo morreu por nós. Muito mais então, sendo justificados pelo Seu sangue seremos salvos da ira de Deus por meio dele.” (Romanos 5:8,9). “... nossa páscoa também foi sacrificada, mesmo Cristo.” (1 Coríntios 5:7). “... Cristo morreu por nossos pecados, segundo a Escritura” (I Coríntios 15:3). “Aquele que não conheceu pecado. Fê-lo pecado por nós, para que nEle fossemos feitos justiça de Deus” (2 Coríntios 5:21). “... ofereceu para sempre um sacrifício pelos pecados” (Hebreus 10:12). “Porque Cristo também sofreu pelos pecados uma vez, o justo pelos injustos, para que nos trouxesse a Deus ...” (I Pedro 3:18). “Cristo nos redimiu da maldição da Lei, fazendo-Se maldição por nós” (Gálatas 3:13). “... foste morto e remiste para Deus com o Teu sangue homens de toda a tribo, língua, povo e nação” (Apocalipse. 5:9).

Foi pesquisando o grande sucesso do filme Chico Xavier, e do fenômeno espírita na mídia, que tive a idéia do título deste artigo. Em minhas andanças na Internet, encontrei uma mensagem de um entusiasta que dizia mais ou menos o seguinte: “Obrigado Chico, por tudo o que você nos ensinou, e para o que tem despertado o Brasil, mesmo de onde você está nos vendo!”. Então, pensei com meus botões: “Chico está nos vendo?”. Bem, o caso é que se eu acreditasse nisto, também teria uma mensagem para este ilustre brasileiro: “Me desculpe a franqueza Chico, mas, ainda que sua filosofia tenha lá suas virtudes, ela não é, e jamais foi cristianismo!”.


“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” – João 3.16


Fonte: http://www.genizahvirtual.com/2010/08/desculpa-chico-xavier.html#ixzz0ziEgs9dm

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Doutrina e Divergência

Por: Abraham Kuyper

A questão das divergências doutrinárias no seio da igreja tem sido discutida à exaustão por teólogos e líderes eclesiásticos.
Trata-se do seguinte: será que duas doutrinas distintas não podem ser mantidas no contexto da mesma igreja? Não deveríamos permitir divergências? Não deveríamos ser tolerantes e acobertar ou ignorar esses pontos de divergência a fim de manter a paz? Será que não poderíamos pelo menos moderar as diferenças, mantendo-as dentro de certos parâmetros?
Como de costume, buscamos pela resposta na Palavra de Deus. É nela que encontraremos os parâmetros dentro dos quais devemos permanecer.
Há três fases a considerar: nossa própria atitude em relação a tais divergências, os próprios pontos de divergência e, finalmente, as pessoas de quem nós divergimos.
Em relação à nossa atitude, não devemos de forma alguma deixar que interesses pessoais (ou que qualquer sentimento de animosidade em relação àqueles que discordam de nós) interfiram no nosso zelo na defesa da verdade. É nosso dever odiar qualquer inverdade e qualquer mal por amor a Deus, e é nosso dever tentar trazer de volta ao caminho correto aqueles que se desviaram.
Quando Moisés despedaçou as tábuas da lei no monte e reduziu a pó o bezerro de ouro, ele não estava a dar vazão à sua raiva pessoal e amarga, mas sim expressando seu zeolo por Deus. Isso é evidente no fato de ter ele implorado para ter seu nome removido do livro de Deus para evitar que Deus desonrasse Seu Santo Nome destruindo os israelitas. Paulo exige a mesma atitude de cada servo de Cristo ao escrever a Timóteo: “E ao servo do Senhor não convém contender, mas sim, ser manso para com todos, apto para ensinar, sofredor; instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade…” (2Tim. II, 24-25). Além disso, “que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina.” (2Tim. IV, 2). Tais palavras não ensinam indolência ou indiferença ou silêncio para com a crença dos outros, mas de fato insistem que, em todo protesto contra falsas doutrinas, a motivação não deve ser o sentimento pessoal, mas sim, a glória de Deus e a edificação de nossos irmãos, incluindo aqueles de quem discordamos.
Os próprios pontos de divergência também devem ser levados em conta, independentemente de serem ou não doutrina fundamental. Onde houver divergência de interpretação de uma certa passagem da Escritura mas nenhuma doutrina fundamental for envolvida, deve haver tolerência. Uma pessoa tem direito à sua opinião sem negar esse direito a outra: o leitor cristão é livre para aceitar aquela interpretação que ele, guiado pelo Espírito Santo que habita em si, julgar ser mais correta (ou menos problemática). Isso é parte da liberdade que têm os filhos de Deus. Ora, nós só conhecemos em parte, e nós só profetizamos em parte, porque enxergamos tudo embaçado. E é através da própria variedade de opiniões que, por vezes, o sentido de uma passagem é esclarecido com o passar do tempo.
Todavia, se a interpretação for tal que contradiga algum artigo da fé, então deve ser refutada, pois a verdade do Evangelho deve ser defendida contra toda falsa doutrina.
Veja, por exemplo, o que Cristo diz: “meu Pai é maior do que eu” (Jo. XIV, 28). Alguns interpretam isso como uma alusão à Sua natureza humana. Outros dizem que Jesus queria ressaltar Seu estado de humilhação. E outros entendem que isso significa que, na condição de nosso Mediador, ao se tornar obediente ao Seu Pai, Cristo se humilhou. Nenhum dos três entra em conflito com as confissões. Contudo, se o texto for interpretado como se dissesse que Cristo revoga divindade, que Ele nega Sua unidade essencial com o Pai, então nos deparamos com uma doutrina que se choca contra a confissão de que Cristo é verdadeiro e eterno Deus. Tal divergência não pode ser tolerada no seio da igreja.
Finalmente, consideremos as pessoas que são desviadas por falsas opiniões e doutrinas. Tais pessoas podem ser classificadas de duas formas: aqueles neófitos ou fracos na fé e aqueles que são fortes e que defendem forte e abertamente as suas ideias e pelejam para ganhar adeptos. A primeira categoria deve ser tratada gentilmente, e instruída em uma porção maior da verdade, no intuito de que cresçam na fé. Devemos ser pacientes com os que são fracos.
Entretanto, não podemos ser tolerantes com aqueles que aceitam e que ensinam doutrinas que não estão de acordo com a Palavra de Deus. Temos o dever de defender veementemente a verdade, de modo que, se possível, eles possam ser ganhados de volta, ou pelo menos advertidos de seu erro. O conselho completo de Deus lhes deveria ser exposto de modo simples e claro.
Tolerância e paciência, portanto, devem certamente caracterizar a nossa atitude pessoal em geral e também nos casos de divergência pequena. Paciência também é chave ao lidar com aqueles que são neófitos ou fracos na fé.

Contudo, aqueles que ensinam qualquer coisa contrária à Palavra de Deus não podem permanecer na igreja de Deus.
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Sobre o autor: O escritor holandês Abraham Kuyper (1837-1920), filósofo, teólogo e estadista, fez parte de um movimento de reforma interna da igreja holandesa e depois tornou-se primeiro-ministro de seu país. É mais conhecido através de suas Preleções Stone a respeito da cosmovisão reformada e de seus livros devocionais. É considerado o pai fundador do movimento neocalvinista por conta do desenvolvimento da teoria das esferas de soberania e um dos principais líderes políticos cristãos conservadores do século XX.

Traduzido por: Lucas G. Freire.
Fonte: The Practice of Godliness (Grand Rapids: Eerdmans, 1948), pp.47-49.
Extraído do blog: [ Neocalvinismo sem Mundanismo ]
Via: [ Eleitos de Deus ]

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Momento Teológico - Inspiração, Revelação e Iluminação

Me desculpem por esses dias sem posta, mas estive envolvido com outras atividades e também viajando a trabalho. Estou retornando às atividades de postagem com algumas informações à respeito de Inspiração, Revelação e Iluminação que estive estudando e que me foram muito úteis. Aproveitei para mudar um pouco o layout do blog para facilitar a leitura.

Espero que seja útil para você também. Boa leitura!

Há dois conceitos inter-relacionados que nos ajudam a esclarecer, pela contraposição, o que significa inspiração. São eles a revelação e a iluminação. Revelação diz respeito à exposição da verdade. Iluminação, à devida compreensão dessa verdade descoberta. No entanto, a inspiração não consiste em nem uma, nem em outra. A revelação prende-se à origem da verdade e à sua trasmissão; a inspiração relaciona-se com a recepção e o registro da verdade. A iluminação ocupa-se da posterior apreensão e compreensão da verdade revelada. A inspiração que traz a revelação escrita aos homens não traz em si mesma garantia alguma de que os homens a entendam. É necessário que haja iluminação do coração e da mente. A revelação é uma abertura objetiva; a iluminação é a compreensão subjetiva da revelação; a inspiração é o meio pela qual a revelação se tornou uma exposição aberta e objetiva. A revelação é o fato da comunicação divina; a inspiração é o meio; a iluminação, o dom de compreender essa comunicação.

Gostou? Alguma crítica? Comente no blog.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Momento Teológico - Bíblia

Você sabia que a palavra Bíblia tem origem no grego ("biblos"), depois passou pelo latim ('biblia) e por último francês ("Bíblia")? Portanto a palavra como a conhecemos veio do francês.

A Bíblia possui dois testamentos (o Antigo e o Novo). O Antigo foi escrito pela comunidade judaica, e preservado por ela por um milênio pelo menos, antes da era de Jesus! Já o Novo Testamento foi composto pelos discípulos de Cristo ao longo do século I d.C.

Ao invés de usar "testamento" muitos preferem usar "aliança", já que a palavra testamento traduzida do hebraico ou do grego darem idéia à pacto ou acordo. Sendo assim temos uma antiga aliança firmada entre Deus e seu povo, judeus e a nova aliança, firmado entre Deus e os cristãos.

Porém há uma unidade entre os dois testamentos na pessoa de Jesus Cristo, que declarou ser o tema unificador da Bíblia. Os crentes anteriores a Cristo viviam na esperança do messias. Já os crentes de nossos dias vêem a concretizção dos planos de Deus através de Cristo, Jesus.

segunda-feira, 15 de março de 2010

A Igreja precisa de teologia?

Por: João Alves dos Santos


Introdução e Conceitos

É comum ouvirmos que “a teologia mata a religião” ou que “a Igreja não precisa de teologia e, sim, de vida”. Serão verdadeiras essas afirmações? Admitimos que há muita coisa por aí levando o nome de “teologia” que não passa de especulação humana, por não se basear em pressupostos de uma hermenêutica bíblica. E até a “boa teologia”, quando se torna um fim em si mesma, pode não ter qualquer uso prático e reduzir-se a mero academicismo. Não é disto que falamos aqui. Perguntamos se a verdadeira Teologia é necessária à Igreja.
E o que é verdadeira Teologia? Como o próprio nome indica, Teologia é o estudo de Deus, ou, definindo mais formalmente, “é a ciência que trata de Deus em Si mesmo e em relação com a Sua obra” (B.B. Warfield). Perguntamos, por conseguinte, se a Igreja pode prescindir do conhecimento de Deus e da Sua obra e ainda ser Igreja de Deus. É quase certo que aqueles que negam a necessidade da Teologia na vida da Igreja não diriam, conscientemente, que alguém pode ser cristão sem conhecer a Deus. O que lhes falta é um bom conhecimento do que é Teologia e de suas implicações.
Como podemos conhecer a Deus sem estudar a revelação que Ele faz de Si mesmo? Como saber quem Ele é e o que Ele tem feito e faz, quem somos nós em relação a Ele, o que Ele requer de nós,etc., se não investigarmos o que Ele deixou revelado para nosso conhecimento? Pois esse é o trabalho da Teologia. Esse trabalho parte de três pressupostos: O primeiro é o de que Deus existe; o segundo, de que Ele pode ser conhecido, embora não de modo exaustivo e completo; e o terceiro, de que Ele tem Se revelado tanto por meio de Suas obras (criação e providência - Revelação Geral - Sl19:1,2; At 14:17), como, principalmente, nas Santas Escrituras (Revelação Especial - Hb1:1,2; 1 Pd 1:20,21). É porque Deus Se revelou que podemos conhece-Lo. Nosso conhecimento de Deus não é intuitivo, nem natural, mas comunicado por Ele mesmo através dos meios que soberanamente escolheu. “Fazer teologia”, portanto, não é inventar teorias a respeito de Deus e de Suas obras, nem mesmo “descobrir” a Deus, mas conhecer e compreender a revelação que Ele próprio deu de Si. Por isso, qualquer estudo de Deus que não tiver a Sua revelação como base, meio e princípio regulador não é “teologia”, devidamente entendida.
A palavra “teologia” não ocorre na Bíblia e o termo que lhe é equivalente, no N.T., é “doutrina” ( “didache” ou “didaskalia”, no grego), que vem de uma raiz que significa “ensinar” e pode se referir tanto ao ato de ensinar, propriamente, como ao conteúdo do que é ensinado (Rm 6:17;1Tm 6:3-4; 2Tim 4:3-4; Tito 1:2,9, etc.). Podemos dizer, de modo mais completo agora, que Teologia é o conjunto de verdades extraídas dos ensinos bíblicos a respeito de Deus e de Sua obra, e que são apresentadas de modo sistemático, na forma de um corpo de doutrinas. A essa forma ordenada de doutrinas, dá-se inclusive, o nome de “Teologia Sistemática”. O adjetivo aqui, não altera o conceito de “teologia”.
Assim entendidas, fica evidente que não há diferença entre Teologia e Doutrina. Mas voltemos ao nosso tema. Duas são as razões geralmente apresentadas para se dizer que a Igreja não precisa de Teologia. Elas se baseiam em duas falsas antíteses:

1. A primeira é a suposição de que o Cristianismo se baseia em fatos e não em doutrinas.

Concordamos que nossa salvação não repousa sobre um conjunto de teorias ou idéias, mesmo que extraídas corretamente da Bíblia, a que damos o nome de “doutrina”, mas sobre os atos poderosos e eficazes do nosso soberano Deus. Não somos salvos através de uma correta teoria a respeito da pessoa de Cristo, mas pela própria pessoa de Cristo; nem através de um exato entendimento da doutrina da Expiação, mas pelo próprio ato expiatório. É possível alguém ser “bom teólogo”, nesse sentido, e ainda não experimentar as graças ensinadas nas doutrinas que expõe. A doutrina realmente não salva. A obra de Cristo, devidamente aplicada pelo Espírito no coração do crente, é que assegura essa graça. Seu nascimento sobrenatural, Sua vida de perfeita obediência à Lei, Sua morte substitutiva, Sua ressurreição, Sua ascensão e assentamento à direita do Pai, Sua segunda vinda, são os grandes fatos que tornam garantida a salvação dos eleitos.
Mas como sabemos que esses são os fatos? Que sentido teriam esses acontecimentos se não tivessem sido interpretados? É a doutrina que lhes dá sentido. Como viemos a saber que aquele menino que nasceu em Belém é o Filho de Deus? Por que descansamos na eficácia da Sua morte para a expiação dos nossos pecados? Por que sabemos que a Sua ressurreição, há dois mil anos atrás, garante a nossa justificação? É porque esses fatos são todos explicados e interpretados pela doutrina. Esta não só informa o fato como também dá o seu significado. A doutrina não salva, mas pode tornar o homem sábio para a salvação (2Tm 3:15). Doutrina sem fato é mito, mas fato sem doutrina é mera história.
O Cristianismo, portanto, consiste em “fatos que são doutrinas e doutrinas que são fatos”, na expressão de B.B. Warfield. Ele diz: “A Encarnação é uma doutrina: nenhum olho viu o Filho de Deus descer dos céus e entrar no ventre da virgem; mas se isso não for um fato histórico também, nossa fé é vã e permanecemos ainda em nossos pecados”( Selected Shorter Writings, vol 2, p. 234). Fato e doutrina se complementam no Cristianismo. Quando João diz: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade” (Jo 1:14), não está apenas apresentando um fato; está explicando-o também. Quando Paulo afirma que Jesus “foi entregue por causa das nossas transgressões,e ressuscitou por causa da nossa justificação” (Rm 4:25), de igual modo está dando uma interpretação aos fatos da morte e ressurreição de Cristo. Isto é o que se vê em toda a Escritura, especialmente nas epístolas.
Até mesmo os fatos manifestos na natureza (Revelação Geral) não seriam devidamente compreendidos se não fossem explicados pela Bíblia (Revelação Especial). Podemos hoje entender que “os céus manifestam a glória de Deus” (Sl 19:1) porque o Criador nos tem revelado isso na Sua Palavra. Sem essa explicação, sua mensagem (a dos céus) passaria despercebida e eles poderiam até ocupar o lugar do Criador, gerando a idolatria (devido ao pecado), como lemos em Rm 1:18-32. Não é o acontece quando as pessoas dizem que “a natureza é sábia”, ou quando a chamam de “mãe natureza”?. Sem a revelação do Criador, a criatura toma o seu lugar. Daí dizer-se que para se conhecer a Deus é preciso que Ele fale, e não somente que Ele aja.
Concluímos, portanto, que os fatos só têm sentido quando acompanhados da doutrina. Nem é pertinente perguntar qual dos dois é mais importante. Seria o mesmo que indagar qual das duas pernas é mais importante para o nosso caminhar. O ensino da doutrina é uma das ênfases da Bíblia (1Tm 3:2; 2Tm 2:2; Tito 1:9; Ef 4:11), pois sem ela não existe verdadeiro Cristianismo.

2. A segunda é a suposição de que o Cristianismo consiste em vida, não em doutrina.

Por trás dessa afirmação podem estar raízes do conceito filosófico que exalta o misticismo, as emoções, o sentimento religioso do homem, e que procura eliminar da religião todo apelo ao intelecto, à razão. “Religião é vida e a vida é dinâmica, fluente; a doutrina é estática, fria, e, portanto, não pode ser compatível com o caráter do Cristianismo”, dizem. Aqueles que assim pensam até admitem um certo tipo de doutrina, desde que mutável, adaptada sempre à dinâmica da vida e conformada às “necessidades” da época e do lugar onde a vida do Cristianismo se manifesta. Até chamam a isso de “teologia contemporanizada” ou “contextualizada”. Segundo esse ponto de vista, não é a doutrina que deve dirigir a vida, mas esta àquela. “A letra mata, mas o espírito vivifica”, argumentam. A prática (práxis) é colocada acima da doutrina não só em importância, mas também no tempo: a doutrina passa a ser um produto da vida cristã, não a sua norma. Há até quem interprete assim a célebre divisa: “Igreja reformada sempre se reformando”.
Mas será essa a visão bíblica do Cristianismo? Podemos dizer, com base na palavra de Deus, que o Cristianismo é vida e não doutrina, ou, primeiramente vida, depois doutrina? Existe tal antítese? Se essa posição for verdadeira, então não haverá verdade absoluta, nem princípio fixo, nem revelação objetiva. Tudo cairá no campo dos valores relativos e passará a depender do subjetivismo, da “piedade”, das emoções. Não admira que haja tanta “fluidez” e instabilidade entre os que assim pensam, e que sejam facilmente levados “por todo vento de doutrina”. Para estes, a doutrina é o que menos interessa.
Concordamos também que Cristianismo é vida, e graças a Deus por isso! Onde a vida não se manifesta, nos moldes escriturísticos, falta a alma da verdadeira religião. Mas devemos ou podemos prescindir da doutrina para que essa vida se manifeste? Antes de tudo, é a verdade de Deus relativa? Depende o seu valor do lugar e da época em que se encontram os homens? Sabemos que esta é a posição atual dos que se denominam pluralistas e esse é o pressuposto básico desta posição. Será que aquilo que foi deixado por Paulo e pelos outros apóstolos como doutrina para os seus dias deveria ser mudado nos dias de Agostinho, depois nos dias de Lutero e Calvino, depois nos dias de Warfield e dos Hodge e, assim, sucessivamente, até os nossos dias, para dar lugar às manifestações de vida? Não creio que a Bíblia justifique essa posição nem que esses teólogos a tenham entendido assim. O princípio de que “a Igreja reformada deve estar sempre se reformando” visa manter sempre a mesma posição em relação à verdade, não alterá-la, para que seja aplicável em todas as épocas. É para que continue sempre sacudindo de si toda tradição e acréscimo humano que não estejam de acordo com os valores fixos e absolutos da palavra de Deus. Reformar é voltar às origens, ao que foi intencionado no princípio por Deus. E não há outra forma de se fazer isto a não ser pela doutrina.
Foi a doutrina bíblica, tão bem exposta pelos reformadores e tão negligenciada pela Igreja, que a trouxe de volta às origens e lhe recuperou a vida, no século XVI. Foi a falta da verdadeira doutrina que enfraqueceu a Igreja e a lançou num tradicionalismo vazio e pagão. É a correta aplicação da doutrina que produz a verdadeira vida cristã. Não basta apenas um sentimento religioso para fazer de um homem um cristão. É preciso que sua vida seja moldada na doutrina de Cristo. É a doutrina que dá característica à vida.
Sem dúvida, não estamos afirmando que apenas a doutrina, independente da obra santificadora do Espírito, produz vida. A doutrina é, isto sim, o meio que o Espírito soberanamente usa para nos fazer conhecer a vontade de Deus e nos levar a praticá-la. É através dela que ficamos sabendo que a vontade de Deus é a nossa santificação e que, sem esta, ninguém verá o Senhor (1 Ts 4:3; Hb 12:14). É ela que nos aponta os meios de graça deixados pelo próprio Senhor, que é quem nos santifica (Lv 20:7-8; Ef 5:26). Nas epístolas paulinas, a íntima relação entre doutrina e prática é evidenciada pelo seu método de apresentar primeiro a argumentação teológica (doutrinária) para depois tirar as implicações práticas dela decorrentes (Ex. Rm 1-11: doutrina; 12-16: prática). Isso se torna ainda mais claro na oração sacerdotal de Cristo, em que Ele associa a prática da santificação com a doutrina da Palavra: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 15 :17) e em João 7:17, onde o fazer a vontade de Deus está ligado ao conhecer a doutrina: “Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo”.
O conhecimento de Deus começa pela porta do intelecto, da razão, para depois pervadir todas as áreas do ser e se transformar em manifestações de vida que O agradem e glorifiquem. Por isso, o ensino da doutrina é indispensável na Igreja, tanto através do púlpito como pelos estudos semanais, pela Escola Dominical e por qualquer outro meio disponível. Nossa demonstração de vida pode impressionar as pessoas e despertar nelas certa admiração, mas é pela pregação da Palavra que vem a fé que transforma (Rm 10:7) A espada do Espírito é a Palavra (Ef 6:17).

Conclusão

Concluímos, portanto, que a Igreja precisa da Teologia, porque precisa da doutrina nela contida para dar sentido e expressão aos fatos do Cristianismo e para prover os meios de manifestação da verdadeira vida cristã.
Fonte: [ http://www.ipcb.org.br/]
Via: [ Eleitos de Deus ]

segunda-feira, 8 de março de 2010

A falência dos seminários teológicos brasileiros.

Por Renato Vargens


Há pouco passei em frente a uma igreja evangélica deparando-me com uma faixa que dizia: "Venha estudar gratuitamente em nosso seminário teológico."

Confesso que ao ler o conteúdo da faixa fiquei intrigado de como aquela igreja de aparência simples, poderia custear um seminário teológico, até porque, como todos sabemos os custos e despesas relacionados a manutenção de um seminário não são nada baratos.

Pois é, assim como o seminário em questão, existem inúmeros seminários esparramados pelo Brasil, oferecendo aos evangélicos um curso básico de teologia. A questão é que boa parte destes seminários não possuem a menor condição de capacitar, formar e qualificar líderes ao ministério pastoral, isto sem falar é claro, de que não possuem em sua equipe pedagógica professores capazes de ensinar aos seus alunos os conceitos mais básicos da fé cristã. Em contra partida, os grandes seminários das igrejas históricas experimentam a mais profunda crise ensinando em suas classes heresias sutis e destruidoras. Se não bastasse isso, tais seminários são tendenciosos ao extremo pregando aos seus alunos as aberrações do liberalismo teológico ou defendendo com unhas e dentes uma volta litúrgica ao século XVI, cujo fundamentalismo é a principal caracteristica.

Para piorar a situação, a maioria dos seminários abandonaram a confessionalidade, ensinando conceitos dúbios e confusos aos seus também confusos alunos. Em nome de uma fé interdenominacional, negocia-se a sã doutrina, o que por consequinte, contribui em muito para a idiotização da igreja de Cristo.

Quanto aos professores, o que se percebe é que ainda que possuam formação acadêmica, suas doutrinas não possuem uma linha teológica definida. Sinceramente confesso que não entendo como liberais dão aula em seminários confessionais, ou como neopentecostais ministram em seminários reformados e calvinistas. Para agravar mais a situação boa parte destes professores ensinam um evangelho humanista, cuja ênfase principal é a psicanálise e auto-ajuda.

Caro leitor, um dos mais graves problemas da igreja evangélica brasileira é o ensino teológico. Acredito que mais do que nunca, necessitamos rever nossos conceitos, até porque, se continuarmos deste jeito colheremos frutos nada agradáveis.

Pense nisso!

Renato Vargens
Fonte: [ Blog do autor ]