“Pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!” (O apóstolo Paulo – Romanos 1.25).
O filme "Avatar" (Estados Unidos, 2009) quase confirmou sua fama de arrasa-quarteirão. Após abocanhar o troféu de melhor filme temático e melhor direção no Globo de Ouro, não conseguiu levar o Oscar de melhor filme e nem de melhor direção para James Cameron. "Guerra ao Terror" foi o grande vencedor. Porém, como consolo, "Avatar" ganhou três estatuetas, todas de categorias técnicas. Assisti-o com minha esposa e o premiaria também com a estatueta de "Oscar de melhor filme esotérico de 2009"'.
“Avatar” destaca-se do ponto de vista tecnológico e esotérico.
O enredo
Um bom roteirista pode criar um filme para passar a mensagem que desejar, de forma explícita ou sutil. Qualquer narrativa pode enaltecer o bem ou o mal, fazer-nos beber água limpa ou podre e nos emocionar ao ponto de rirmos ou chorarmos.
“Avatar” é uma ficção científica inundada com água dos esgotos espirituais.
Em um planeta chamado Pandora, a anos-luz da Terra, existe uma substância chamada unobtainium que é de grande valor para os humanos que viajaram até lá para conquistá-la. No entanto, os nativos de Pandora, chamados de Na’vis,* são um obstáculo nessa conquista, pois um grupo deles está assentado em uma área exatamente sobre a maior reserva de unobtainium do planeta.
O malvado coronel Miles Quaritch (interpretado por Stephen Lang) deseja usar a força e eliminar logo os Na’vis. Já a boa cientista, doutora Grace Augustine (interpretada por Sigourney Weaver), acredita na diplomacia e que os humanos e Na’vis venham a ser amigos.
Os humanos criam, então, avatares Na’vis que se infiltram entre os nativos com o objetivo de convencê-los a saírem daquele local. Esses avatares são basicamente humanos em corpos de Na’vis.
O principal avatar é Jake Sully (interpretado por Sam Worthington), que tem sucesso em se infiltrar, mas acaba sendo seduzido pela maneira de viver dos Na’vis, apaixona-se por uma Na’vi, vira a casaca e passa a lutar com os nativos contra os abomináveis humanos. Isso me fez lembrar um pouco da trama do “O Último Samurai”.
Os Na’vis amam a natureza, adoram a deusa Eywa (que é uma força espiritual que mantém o equilíbrio da natureza) e são conectados a ela através de uma espécie de sonda que sai da parte posterior de suas cabeças, como se fossem longas tranças dos seus cabelos.
A inevitável batalha final é ganha pelos Na’vis e, graças à deusa Eywa, Jake Sully tem um novo nascimento e passa a ser não mais um avatar-na’vi, mas um Na’vi de verdade.
A narrativa do filme foi de certa forma pobre em conteúdo para quase três horas de duração. O que salta aos olhos é o espetáculo de tecnologia e esoterismo.
A tecnologia de Avatar
O diretor James Cameron superou todas as expectativas, ao esperar mais de dez anos para produzir “Avatar”. Pois, quando idealizou essa película, ainda não existia tecnologia suficiente para produzi-la.
Cerca de 70% do filme foi gerado em computador, mas não parece. Criado especificamente para ser assistido em 3D, “Avatar” vem à tona com cores vivas e as imagens do planeta Pandora parecem ser bastante reais. Muitas das cenas onde os humanos interagem com as criaturas de Pandora foram gravadas em frente a uma tela verde, mas com tamanha precisão que confesso, com algumas exceções, não consegui distinguir visualmente o real do irreal.
A propósito, realidade neste filme é outra coisa. Se o leitor está procurando o mundo real, é melhor ler a Bíblia.
A doutrinação do filme Avatar
Se a película “Avatar” foi pobre em diálogos, o mesmo não pode ser dito sobre sua visão de mundo esotérica.
Neste artigo quero salientar apenas dois aspectos. Uma análise mais abrangente será feita no livro “Ah! Deliciosos Filmes Anticristãos – Volume 4”.
1) A popularização da palavra “avatar”
Para qualquer cristão que estuda esoterismo, sempre que se depara com a palavra “avatar”, uma luz vermelha se acende na mente.
A Bíblia nada fala sobre “avatar”, porém citações sobre avatares (ou avataras) aparecem na Bhagavad-Gita, que é o mais popular livro do hinduísmo. A Bhagavad-Gita esclarece: “Há várias espécies de avataras [...] mas o Senhor Krishna é o Senhor primordial, a fonte de todos os avataras”.
Originalmente, a palavra “avatar” vem do indiano antigo, chamado sânscrito, e no hinduísmo significa “o Deus que desceu do Céu para a Terra”: seria a “aparição” ou “manifestação” ou “encarnação” de um deus na Terra. Por exemplo, o deus hinduísta Vishnu diz ter inúmeros avatares.
A propósito, a cor azul clara dos Na’vis me lembrou de Krishna.
Um outro significado para a palavra “avatar” tornou-se popular com o advento de jogos na internet. Cada participante cria o seu próprio “avatar”, dotando-o das características que achar necessário. São corpos virtuais criados pelos jogadores. Além disso, a companhia Nintendo tem uma linha de videogames intitulada “Avatar”. O “Avatar” do diretor James Cameron cai nesta definição de uma criatura produzida para ser manuseada com fins específicos, como nos jogos dos internautas.
Os avatares de Cameron são entidades biológicas idênticas aos Na’vis, mas com algum DNA humano.
2) A popularização do monismo e do panteísmo
Numa cena de “Avatar” ficamos sabendo que o planeta Terra já foi tão verde quanto o planeta Pandora, mas que os humanos tinham devastado tudo.
A mensagem do filme resume-se à luta do povo bom e espiritual da floresta (os Na’vis) contra os terríveis e abomináveis humanos. A palavra Na’vi lembra foneticamente a palavra inglesa “naive” que quer dizer “ingênuo”. “Avatar” é a luta dos supostamente ingênuos contra os humanos perversos.
Ao término, ficamos satisfeitos com a morte do Coronel Quaritch e com a destruição do seu exército. Os humanos que sobreviveram foram enviados de volta ao já moribundo planeta Terra para lá morrerem. Torcemos contra os humanos. Que maravilha!
O tema do filme é claro: “Louve a natureza e seja um com ela!”. Este longa-metragem nos ensinou que os humanos já destruíram a natureza do planeta Terra e estão destruindo o meio-ambiente de outros planetas, perdendo a oportunidade de conhecerem a visão espiritual de serem um com todas as criaturas.
Aprendemos também neste filme que todas as coisas criadas têm um espírito e que todas as coisas vivas estão interconectadas entre si e com a “mãe deusa Eywa”. Isso me trouxe à memória o desenho animado “Pocahontas”.
Uma das fortes cenas onde essa mensagem é transmitida ocorre quando todos os Na’vis estão sentados no chão, conectados a ele com suas tranças-sondas, balançam, como uma dança, recitando um cântico que mais parece um mantra à deusa Eywa.
Imagine só? A cientista Grace Augustine chegou a descobrir que todas as árvores da floresta de Pandora têm conexões eletro-químicas entre elas e que juntas formam uma grande rede elétrica igual às sinapses do nosso cérebro. É uma pseudo-ciência tentando justificar de forma racional a doutrina esotérica do “monismo-panteístico”.
Monismo (do grego mono, “um”), é uma visão de mundo que assegura que toda a realidade, tanto a material quanto a espiritual, é concebida como um todo unificado. Em última análise, não existem distinções reais entre as coisas. Popularmente falando: “Tudo é um, um é tudo”.
Panteísmo (do grego pan, “tudo”, e theos, “deus”) é uma visão de mundo que identifica todas as coisas com Deus e Deus com todas as coisas. Todas as coisas são partes de Deus e, portanto, divinas. Não existe uma pessoa ou qualquer coisa que esteja separada ou distinta de Deus. Popularmente falando: “Deus é tudo, tudo é Deus”.
Quando unimos as definições de monismo e panteísmo, teremos a principal doutrina do Movimento da Nova Era (The New Age): o monismo-panteístico. Popularmente falando: “Tudo é Um, Um é Tudo, Tudo é Deus”.
O monismo-panteístico é o dogma principal do filme “Avatar”.
Então, a “salvação” dos Na’vis é um estado de consciência iluminado onde a pessoa descobre que é um com todas as coisas (monismo). Dando esse primeiro passo, a pessoa também descobre que ela é um com Deus e que pode participar desta vida divina sem a necessidade de um mediador entre Deus e ela. Pois, todas as coisas são divinas (panteísmo) e não há razão para aceitar a obra redentora de Jesus Cristo.
Já do ponto de vista cristão, existe uma total separação entre o Deus puro e Suas criaturas impuras. O pecado separou as pessoas de Deus e o acesso do indivíduo a essa reconciliação com o Deus Pai só acontece quando ele é lavado pelo sangue redentor de Jesus Cristo (o nosso Mediador).
“O homem igual a Deus” é a velha mentira do Jardim do Éden: “sereis iguais a Deus”, com a qual a Serpente seduziu Eva. Costumo dizer que o fruto que Eva comeu foi a maior cachaça que a humanidade já tomou. No Éden, o ser humano caiu neste conto e passou a viver espiritualmente tonto, desnorteado, tateando no escuro, até os dias de hoje. “Avatar” nos oferece esse mesmo pileque.
Conclusão – um “blockbuster” esotérico
“Avatar” é um incrível blockbuster para superar todos os outros blockbusters. Vem batendo todos os recordes de arrecadação financeira e caminha a passos largos para ser o filme mais assistido de todos os tempos.
“Avatar” nos trouxe a má e caduca notícia da “divindade interior” e vem iludindo milhões de pessoas que lotam os cinemas por este mundo afora.
Sim, com certeza temos tratado muito mal o meio-ambiente e estamos pagando caro por isso. Mas, existe uma boa notícia que os humanos não contaram aos Na’vis, e esta é que tudo isso é conseqüência do nosso pecado e que Deus já pagou a nossa dívida na cruz ao enviar o Seu Filho Jesus Cristo para morrer por nós. Tudo que temos de fazer é reconhecer nossa podridão e deixar-nos lavar pelo sangue do Cordeiro de Deus.
“O homem sendo um com Deus”, que enganação! “Que perversidade a vossa! Como o oleiro fosse igual ao barro, e a obra dissesse do seu artífice: Ele não me fez; e a coisa feita dissesse do seu oleiro: Ele nada sabe” (Isaías 29.16).
Quem somos nós para questionarmos a Deus? “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim?” (Romanos 9.20).
A frase mais repetida na noite da entrega do Oscar foi “... and the winner is...” (“... e o vencedor é...”). Gostaria de repeti-la mais uma vez nesta minha fictícia entrega do “Oscar de melhor filme esotérico de 2009”: “E o vencedor é AVATAR!”. (Dr. Samuel Fernandes Magalhães Costa - http://www.chamada.com.br)
* No filme, a palavra Na’vi é usada tanto para o singular quanto para o plural. Para efeitos didáticos usarei Na’vi para o singular e Na’vis para o plural.
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quarta-feira, 10 de março de 2010
segunda-feira, 8 de março de 2010
A falência dos seminários teológicos brasileiros.
Por Renato Vargens
Há pouco passei em frente a uma igreja evangélica deparando-me com uma faixa que dizia: "Venha estudar gratuitamente em nosso seminário teológico."
Confesso que ao ler o conteúdo da faixa fiquei intrigado de como aquela igreja de aparência simples, poderia custear um seminário teológico, até porque, como todos sabemos os custos e despesas relacionados a manutenção de um seminário não são nada baratos.
Pois é, assim como o seminário em questão, existem inúmeros seminários esparramados pelo Brasil, oferecendo aos evangélicos um curso básico de teologia. A questão é que boa parte destes seminários não possuem a menor condição de capacitar, formar e qualificar líderes ao ministério pastoral, isto sem falar é claro, de que não possuem em sua equipe pedagógica professores capazes de ensinar aos seus alunos os conceitos mais básicos da fé cristã. Em contra partida, os grandes seminários das igrejas históricas experimentam a mais profunda crise ensinando em suas classes heresias sutis e destruidoras. Se não bastasse isso, tais seminários são tendenciosos ao extremo pregando aos seus alunos as aberrações do liberalismo teológico ou defendendo com unhas e dentes uma volta litúrgica ao século XVI, cujo fundamentalismo é a principal caracteristica.
Para piorar a situação, a maioria dos seminários abandonaram a confessionalidade, ensinando conceitos dúbios e confusos aos seus também confusos alunos. Em nome de uma fé interdenominacional, negocia-se a sã doutrina, o que por consequinte, contribui em muito para a idiotização da igreja de Cristo.
Quanto aos professores, o que se percebe é que ainda que possuam formação acadêmica, suas doutrinas não possuem uma linha teológica definida. Sinceramente confesso que não entendo como liberais dão aula em seminários confessionais, ou como neopentecostais ministram em seminários reformados e calvinistas. Para agravar mais a situação boa parte destes professores ensinam um evangelho humanista, cuja ênfase principal é a psicanálise e auto-ajuda.
Caro leitor, um dos mais graves problemas da igreja evangélica brasileira é o ensino teológico. Acredito que mais do que nunca, necessitamos rever nossos conceitos, até porque, se continuarmos deste jeito colheremos frutos nada agradáveis.
Pense nisso!
Renato Vargens
Fonte: [ Blog do autor ]
Há pouco passei em frente a uma igreja evangélica deparando-me com uma faixa que dizia: "Venha estudar gratuitamente em nosso seminário teológico."
Confesso que ao ler o conteúdo da faixa fiquei intrigado de como aquela igreja de aparência simples, poderia custear um seminário teológico, até porque, como todos sabemos os custos e despesas relacionados a manutenção de um seminário não são nada baratos.
Pois é, assim como o seminário em questão, existem inúmeros seminários esparramados pelo Brasil, oferecendo aos evangélicos um curso básico de teologia. A questão é que boa parte destes seminários não possuem a menor condição de capacitar, formar e qualificar líderes ao ministério pastoral, isto sem falar é claro, de que não possuem em sua equipe pedagógica professores capazes de ensinar aos seus alunos os conceitos mais básicos da fé cristã. Em contra partida, os grandes seminários das igrejas históricas experimentam a mais profunda crise ensinando em suas classes heresias sutis e destruidoras. Se não bastasse isso, tais seminários são tendenciosos ao extremo pregando aos seus alunos as aberrações do liberalismo teológico ou defendendo com unhas e dentes uma volta litúrgica ao século XVI, cujo fundamentalismo é a principal caracteristica.
Para piorar a situação, a maioria dos seminários abandonaram a confessionalidade, ensinando conceitos dúbios e confusos aos seus também confusos alunos. Em nome de uma fé interdenominacional, negocia-se a sã doutrina, o que por consequinte, contribui em muito para a idiotização da igreja de Cristo.
Quanto aos professores, o que se percebe é que ainda que possuam formação acadêmica, suas doutrinas não possuem uma linha teológica definida. Sinceramente confesso que não entendo como liberais dão aula em seminários confessionais, ou como neopentecostais ministram em seminários reformados e calvinistas. Para agravar mais a situação boa parte destes professores ensinam um evangelho humanista, cuja ênfase principal é a psicanálise e auto-ajuda.
Caro leitor, um dos mais graves problemas da igreja evangélica brasileira é o ensino teológico. Acredito que mais do que nunca, necessitamos rever nossos conceitos, até porque, se continuarmos deste jeito colheremos frutos nada agradáveis.
Pense nisso!
Renato Vargens
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quarta-feira, 3 de março de 2010
O que é o Movimento Nova Era
Nova Era ou New Age é um movimento mundial que tem por objetivo maior levar a população mundial à rebelião contra Deus e contra a Sua Palavra. O movimento teve início em 1875 com a Sociedade Teosófica, fundada pela russa Helena Petrovna Blavatsky, em Nova York. Sua meta é estabelecer uma Nova Ordem Mundial, um Novo Governo Mundial e uma Nova Religião Mundial. E mais: serviço militar obrigatório em escala mundial, globalização da economia, um só exército. Trata-se de uma preparação para a encarnação do anticristo. A Nova Era declara que o homem é Deus e, como tal, poderá alcançar a perfeição com seus próprios esforços. O Movimento ensina, difunde e defende todas as formas e práticas do ocultismo. A unificação das moedas, a universalidade dos cartões de crédito, a propagação do homossexualismo; liberação do aborto em vários países e inseminação artificial; o aumento do uso de drogas, tudo isso aponta para os dias da Grande Tribulação. O movimento ainda divulga as práticas ocultistas. Seus livros e utensílios de magia (músicas, perfumes, pirâmides, amuletos, cristais, incenso) são vendidos aos milhões.
Autor: Pr. Airton Evangelista da Costa
Estudos Bíblilcos e Sermões.
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terça-feira, 2 de março de 2010
Igreja: lugar de sábios ou de antiintelectuais?
antes medita nele dia e noite” – Js 1:8a
Hoje quero abordar um tema que há tempos tem tomado espaço nas minhas reflexões: o antiintelectualismo dentro das igrejas. Então vamos lá.
Observe a mensagem a seguir. Ela é um trecho do discurso proferido por Charles Malik, durante a inauguração do Billy Grahan Center, no campus da Wheaton College, e tinha como tema “As duas tarefas da evangelização”. Segundo Malik a salvação é tanto para a alma quanto para a mente, isto é, converter as pessoas não apenas espiritualmente, mas também intelectualmente.
“Devo ser franco com vocês: o antiintelectualismo é o maior perigo que o cristianismo evangélico enfrenta. A mente, compreendida em suas maiores e mais profundas faculdades, não tem recebido suficiente atenção. (...) O resultado é que o terreno do pensamento criativo é abandonado e entregue ao inimigo. Quem, entre os evangélicos, pode enfrentar os grandes pensadores seculares em seus próprios termos acadêmicos? Quem, entre os estudiosos evangélicos, é citado pelas maiores autoridades seculares como fonte normativa de história, filosofia, psicologia, sociologia ou política? (…) Por uma maior eficácia no testemunho de Jesus Cristo, bem como em favor de sua causa, os evangélicos não podem se dar ao luxo de continuar vivendo na periferia da existência intelectual responsável.”
O detalhe que chama mais a atenção é o fato de que este discurso foi proferido em 7 de novembro de 1980, ou seja, trinta anos atrás. Não é difícil, porém, constatar que o alerta de Charles Malik não foi o suficiente para que algo fosse feito. Atualmente, o que vivemos é, sem dúvida, uma época extrema de antiintelectualismo, em todas as áreas, inclusive dentro da Igreja Evangélica.
Por incrível que possa parecer, mesmo vivendo a chamada “era do conhecimento”, onde informação de qualidade representa poder, uma época em que boa parte da população, mesmo de baixa renda, tem acesso a televisão, radio e internet, é espantoso constatar que a população, em geral, não consegue lidar com essas informações. Ou pior, não consegue processar tais informações, nem tem senso crítico suficiente para avaliar a qualidade, a veracidade e a utilidade das informações que recebe.
Outros, não poucos, ainda preferem manterem-se ignorantes, nutrindo um sentimento de desdém pelo saber e pelas pessoas que anseiam por estudo e conhecimento. A essa situação podemos chamar antiintelectualismo.
Segundo pesquisas recentes, voluntariamente, os alunos brasileiros lêem, em média, cerca de 1,3 livros por ano. Talvez este seja um dos motivos pelos quais esses alunos têm tão baixos níveis de compreensão e interpretação de textos, e isto, inevitavelmente, se reflete naqueles que freqüentam a igreja e mantêm a mesma postura com relação ao estudo da Bíblia.
Esta defasagem intelectual impõe à Igreja a necessidade de tomar medidas urgentes, como a retomada do incentivo à educação cristã e às quase extintas Escolas Bíblicas Dominicais.
Isto se torna ainda mais relevante, quando lembramos que nós cristãos somos chamados a batalhar pela fé que uma vez nos foi dada (Jd 1:3). Outra razão para que o cristão não se deixe levar pelo que John Sttot chama de “cristianismo de mente vazia” é a necessidade de estarmos sempre preparados para combater as falsas filosofias que proliferam mundo, bem como, e pior ainda, as falsas teologias que invade nossas igrejas.
O cristão precisa ter conhecimento da Palavra de Deus, para não se deixar levar por essa onda de heresias praticadas dentro de certas comunidades, que não vem ao caso citar neste momento. Mas o que se vê, cada vez mais é o povo evangélico, numa postura antiintelectual, deixando de usar sua “porção bereiana” (At. 17:11), preferindo ser iludido com teologia da prosperidade, amuletos gospel, corrente da prosperidade e todo tipo de “mercadoria da fé”.
Triste mesmo é constatar que boa parte deste antiintelectualismo é incentivado por alguns líderes religiosos. Talvez porque imaginam que se mantiverem os seus seguidores na ignorância, poderão enganá-los com maior facilidade.
O início do antiintelectualismo nas igrejas protestantes teve sua gênese com os pregadores avivalistas do século 19, que no afã de lutar contra a apatia e frieza devocional de suas congregações, exageravam no aspecto emocional do cristianismo. Alguns, nem todos, diga-se de passagem, caíram em outro estremo, o desprezo pela intelectualidade.
Ainda hoje é possível ver exemplos de lideranças estimulando o antiintelectualismo. Edir Macedo, líder maior da IURD, em seu livro A Libertação da Teologia, escreve: “Todas as formas e ramos da teologia são fúteis, não passam de emaranhados de idéias que nada dizem ao inculto, confundem os simples e iludem o sábio. Nada acrescentam à fé e nada fazem pelos homens, a não ser aumentar sua capacidade de discutir e discordar entre si.”
A bíblia é clara quanto a necessidade de reflexão intelectual. Vários passagem recomendam: “Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor.” (Os 6:3ª); “Errais não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus” (Mt 22.29); “Persiste em ler, exortar e ensinar” (1Tm 4.13) e “Antes, crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (2 Pe 3.18), entre outros.
E o resultado? Dá uma olhadinha no vídeo abaixo. Não quero criticar o cantor, pois minha capacidade musical é semelhante à dele, mas repara só no conteúdo da mensagem que ele está transmitindo.
Autor: Wilson Parpinelli
Fonte: [ Teologia Inteligente ]
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segunda-feira, 1 de março de 2010
Cientista do CERN fala ao CACP sobre o LHC
Atualmente o mundo vive um frenesi de que o fim está eminente. Pessoas andam apavoradas com o fim do mundo ao ponto de algumas até pensarem em suicídio. O motivo para esse burburinho tem a ver com uma somatória de coisas – A primeira, o calendário religioso dos Maias, seguido de uma superprodução do cinema mostrando que o mundo findará em 2012. Depois o caso do funcionamento da maior máquina científica que a física já produziu – o LHC – O grande Colisor de partículas. Segundo algumas especulações esse Colisor poderia formar um buraco negro, engolindo assim todo o Planeta. Pronto, está formado um caldeirão de fortes emoções!
Diante desses burburinhos, o CACP entrou em contato com o CERN (A Organização Européia para a Investigação Nuclear), que prontamente nos atendeu e nos indicou um dos físicos brasileiros envolvidos com o projeto. Esse é o Dr. Denis Damázio, que muito gentilmente se prontificou em esclarecer qualquer dúvida.
CACP: Dr. Denis Damázio fale-nos um pouco sobre a sua formação e seus projetos de vida.
Dr. Denis: Estudei Engenharia Eletrônica na Universidade Federal do Rio de Janeiro de 1993 ate 1998. Durante o último período da faculdade, comecei no mestrado na COPPE com a intenção de aplicar as técnicas de engenharia na física de altas energias. Acabei passando direto ao doutorado na mesma área e vim fazer uma parte do desenvolvimento da minha tese num dos subdetectores do ATLAS. ATLAS é um dos principais detectores de partículas que estuda as colisões produzidas pelo LHC. Também antes de sair do Brasil (ainda no tempo do mestrado - 1998/1999) trabalhei numa colaboração da UFRJ com a marinha Brasileira para o desenvolvimento de uma metodologia baseada em inteligência artificial para classificação de navios pelo seu som num sonar). Já no CERN (2000/2001), eu trabalhei também na aplicação de técnicas de inteligência artificial para classificação de partículas. Esse trabalho me rendeu varias publicações cientificas e a tese, defendida no final de 2002. Em 2003, fui trabalhar no Laboratório Nacional de Brookhaven nos Estados Unidos num sistema de detecção de raios cósmicos por ondas de rádio. O mesmo grupo tinha um envolvimento com ATLAS, e como eu havia trabalhado previamente no mesmo experimento, eles resolveram me enviar de volta ao CERN para trabalhar na montagem e manutenção do experimento. Nesse meio tempo, eu pude voltar ao projeto que mais me interessa, o sistema de seleção de eventos do ATLAS, o qual, atualmente sou um dos principais desenvolvedores de software.
Sou casado desde outubro de 1999 e nosso primeiro filho chegou a dois anos atrás. Uma segunda esta programada pra março do ano que vem.
CACP: Dr. Denis, como tem sido o envolvimento do Brasil nesse projeto tão grandioso?
Dr. Denis: O Brasil tem sido um grande colaborador apesar dos recursos disponíveis limitados. No ATLAS a colaboração é tão antiga que nem eu mesmo sei quando exatamente começou. O meu orientador de tese, o professor Jose Manoel de Seixas da UFRJ já estava no CERN em 1993, se eu não me engano. Atualmente, temos pesquisadores nas áreas de engenharia (especialmente da computação ou eletrônica) e física trabalhando no desenvolvimento do detector ou na parte de fenomenologia física do ATLAS. Pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora e de São Paulo juntaram-se recentemente ao ATLAS. A UERJ tem uma colaboração forte com o experimento CMS assim como o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF - no Rio) tem uma colaboração com o experimento LHCb. Finalmente, a um ou dois anos atrás apareceu um grupo de Campinas trabalhando no experimento ALICE (mas pra ser sincero, não sei se essa colaboração continuou). Recentemente, foi criada a Rede Nacional de Física de Altas Energias (RENAFAE) com o objetivo de organizar um pouco esses diferentes esforços. Ainda não me parece muito claro o resultado deste instituto, mas a criação do mesmo é, por si só, um passo importante pra pesquisa brasileira.
CACP: Então a pergunta que não quer se calar – O LHC pode destruir o nosso Planeta como alguns acreditam? Seria o fim do mundo?
Dr. Denis: De forma alguma. Se o tipo de evento que nos vamos criar de forma artificial fosse perigoso, se, por exemplo, criasse um buraco negro que engolisse todo o planeta, o planeta já tinha desaparecido muito antes. Os eventos que nos vamos criar atingiram, se atingir, a energia de 14 x 10^12 eV (electron-Volts, uma medida de energia da física de altas energias). Ora, todos os anos muitas partículas com energia muito superior a esta (10^19 eV, ou seja, 10 milhões de vezes mais) atingem a nossa atmosfera (cerca de 1 partícula por Km2 da superfície terrestre por ano). A única diferença e que fazendo esses experimentos de forma controlada, podemos estudar seus subprodutos em maior detalhe (o que é impossível de se fazer na atmosfera...). Assim sendo, se ocorre na natureza, não ha razão para maior preocupação da população em geral.
É verdade que algumas teorias prevêem a possibilidade de se formar minúsculos buracos negros. Os mesmos emitiriam partículas e se dissolveriam antes mesmo de poder causar qualquer dano. Uma vez mais, isso não seria nada que já não aconteça na natureza.
CACP: Se os fatos são claros quanto a impossibilidade da destruição do nosso planeta ou de alguma catástrofe, por que há cientistas afirmando o contrário e com tanta veemência?
Dr. Denis: O Laboratório americano para o qual eu trabalho sofreu o mesmo tipo de pressão quando, graças a altíssima concentração de partículas (lá o mais importante não é a velocidade ou energia da partícula, mas a quantidade de partículas num volume pequeno). Dois pesquisadores do Havaí também fizeram o mesmo alarde. A impressão que da é que são pessoas interessadas em aproveitar a "onda" de publicidade que esta acontecendo. Com relação ao LHC, graças a publicidade extra advinda do livro/filme "Anjos e Demônios", estamos sofrendo uma pressão muito maior. Ainda mais que o livro fala em destruição causada por um "aparato" criado pelo CERN. Na verdade, esse aparato por si só não tem menor sentido. Foi criada até uma pagina no CERN para explicar para a sociedade que muitas das premissas do filme são muito interessantes na ação do filme em si, mas não tem qualquer embasamento cientifico. Quando da inauguração do experimento LEP (nos anos 80 no CERN), apenas as pessoas realmente interessadas tinham acesso a essa informação. Apesar de grandes incertezas, não houve nenhuma discussão a esse respeito na época (que eu saiba. Estava na escola nessa época!).
Outro ponto que também chama muito a atenção é o fato da partícula que estamos a procura, o Boson de Higgs, ter sido apelidado de a "partícula de Deus". Creio que o apelido foi criado primeiro porque dada a dificuldade de encontrar a partícula (o antigo LEP já a procurava), lembra um pouco a procura do cálice sagrado ou algo do gênero. Bem, a tal partícula é difícil mesmo de se achar (e alguns acham mesmo que ela não existe), despertando a curiosidade. A segunda razão, parece-me, pode ter sido para trazer mais publicidade para o tópico. O problema é que, ao misturar ciência e religião, dadas as paixões que despertam ambos os tópicos, podemos acabar numa discussão muito além da questão exata de se encontrar ou não uma entidade com sentido físico.
CACP: O Dr. Walter L. Wagner afirma que os mini buracos negros formados no interior do LHC irão se agrupar e assim juntos formarem um grande buraco com força suficiente para engolir a Terra – teria isso alguma possibilidade?
Dr. Denis: Não conhecia o nome desse pesquisador e suas teorias. Li algumas de suas teorias da internet, aonde todas estão muito bem divulgadas e com seu nome referenciado. Não conheço toda sua obra assim, pode ser um pouco injusto julgar. Me parece, entretanto, que o argumento que tal tipo de evento acontece de forma não destrutiva na natureza sobrepõem seus argumentos para tentar achar um buraco (negro?!) na teoria. Os eventos que estaremos gerando no LHC são raríssimos (mesmo durante as mais intensas colisões as probabilidades que um evento de buraco negro ocorra é bastante baixa) e tais eventos acontecem de forma independente entre si (alguns centímetros de distancia). Assim, a possibilidade que numa mesma colisão dois buracos negros se formem de forma próxima suficiente para que eles se agrupem em escala não microscópica e que isso possa representar algum risco é realmente desprezível.
CACP: Quais os avanços que essas novas descobertas da física poderão, de maneira pragmática, trazer para a sociedade como um todo?
Dr. Denis: Eu sempre respondo esse tipo de pergunta pensando no começo do século 20. Nessa época, pesquisadores como Rutherford bombardeavam finas folhas de metal (ouro) com partículas alfa vindas da decomposição de matérias radiativos, como, por exemplo, o Urânio. Na verdade, esse pesquisador estava fazendo uma das primeiras experiências tais com as que fazemos atualmente. O Urânio, ao emitir diferentes tipos de partículas durante sua desintegração, funciona como um acelerador natural de partículas. A folha de Ouro, funciona como um detector de partículas. Graças a uma experiência a principio sem muito sentido pratico direto como esta, obteve-se uma compreensão profunda do modelo atômico (um núcleo ao centro com elétrons girando a volta). Dai partiu-se para um controle maior dos elétrons em si e dai chegamos (cerca de 40 anos depois) ao transistor. Finalmente, atingimos a nossa sociedade da era da informação que temos hoje em dia. Assim sendo, a pergunta em si me parece um pouco difícil. A verdade é que todo aumento de conhecimento é benéfico, mesmo que só o seja daqui a 40, 100, 200 anos. Para não deixar, entretanto, de dar uma resposta mais concreta, posso citar algumas das pesquisas ou instrumentos desenvolvidos no CERN é que tiveram conseqüências praticas na vida de todos. O mais famoso é o sistema de paginas da internet. O WWW. Foi inventado aqui no CERN com o objetivo de facilitar a comunicação de pesquisadores dispersos no mundo todo através dos Hyper-Documentos. Não acho necessário comentar o impacto desse desenvolvimento na vida de todos. Mais diretamente ligados a pesquisa em si, saiu um artigo recente sobre a utilização de pequenos aceleradores de partículas em clinicas de tratamento de câncer. Um feixe de partículas com energias mais altas é capaz de queimar melhor e de maneira mais precisa um material. O alvo fica mais bem definido em mais alta energia.
Da parte de detectores, posso citar que as mesmas técnicas usadas para detectar partículas interessantes na grande densidade de partículas produzidas a cada colisão do LHC (por exemplo, as técnicas usadas no detector de silício do ATLAS) estão sendo usadas atualmente para realizar radiografia digital, com implicações médicas importantíssimas. O mesmo é feito pelo detector de pixels que esta sendo usado num projeto de tomografia computadorizada. Junto com técnicas de PET-scan, podem ajudar a isolar tumores facilmente e de maneira menos intrusiva. Existe ate um projeto para se criar um olho artificial que poderia ajudar deficientes visuais a voltar a enxergar.
Além de todos estes exemplos (eu realmente tentei resumir ao Máximo), a simples formação de vários pesquisadores (como eu, por exemplo), já é muito importante. Muitos vão trabalhar em pesquisa médica tecnológica e até no mercado financeiro. Essa talvez seja a contribuição de maior importância pró - experimentos: aqueles que não ficaram trabalhando no mesmo, mas levaram a experiência acumulada.
CACP: Suas considerações finais:
Dr. Denis: Espero ter ajudado a divulgar a informação importante de que a pesquisa realizada no CERN é uma pesquisa benéfica pra humanidade e livre de riscos. A nossa própria segurança (nos que estamos na linha de frente desses instrumentos de pesquisa) é um fator que não é de forma alguma negligenciado. É natural, dadas as ambições e também as esperanças depositadas nesse experimento, que certa ansiedade apareça. É também uma característica humana que o medo do desconhecido leve a atitudes extremas. Espero que o maior problema que tenhamos seja realmente algumas noticias de jornal que logo serão esquecidas quando os resultados começarem a aparecer.
Dado o longo tempo que levei pra responder estas perguntas, posso dizer que o acelerador foi finalmente ligado em fins de Novembro e embora tenha operado a baixíssima energia como previsto para o inicio da operação, já tivemos vários eventos sendo detectados pelos nossos detectores. O acelerador foi parcialmente desligado em fins de dezembro já que o CERN não funciona durante o Natal/Ano Novo. A experiência deve retornar em mais alta energia em meados de fevereiro.
Um grande abraço, Denis Damazio
O CACP agradece a sua entrevista.
Fonte: [CACP]
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Diante desses burburinhos, o CACP entrou em contato com o CERN (A Organização Européia para a Investigação Nuclear), que prontamente nos atendeu e nos indicou um dos físicos brasileiros envolvidos com o projeto. Esse é o Dr. Denis Damázio, que muito gentilmente se prontificou em esclarecer qualquer dúvida.
CACP: Dr. Denis Damázio fale-nos um pouco sobre a sua formação e seus projetos de vida.
Dr. Denis: Estudei Engenharia Eletrônica na Universidade Federal do Rio de Janeiro de 1993 ate 1998. Durante o último período da faculdade, comecei no mestrado na COPPE com a intenção de aplicar as técnicas de engenharia na física de altas energias. Acabei passando direto ao doutorado na mesma área e vim fazer uma parte do desenvolvimento da minha tese num dos subdetectores do ATLAS. ATLAS é um dos principais detectores de partículas que estuda as colisões produzidas pelo LHC. Também antes de sair do Brasil (ainda no tempo do mestrado - 1998/1999) trabalhei numa colaboração da UFRJ com a marinha Brasileira para o desenvolvimento de uma metodologia baseada em inteligência artificial para classificação de navios pelo seu som num sonar). Já no CERN (2000/2001), eu trabalhei também na aplicação de técnicas de inteligência artificial para classificação de partículas. Esse trabalho me rendeu varias publicações cientificas e a tese, defendida no final de 2002. Em 2003, fui trabalhar no Laboratório Nacional de Brookhaven nos Estados Unidos num sistema de detecção de raios cósmicos por ondas de rádio. O mesmo grupo tinha um envolvimento com ATLAS, e como eu havia trabalhado previamente no mesmo experimento, eles resolveram me enviar de volta ao CERN para trabalhar na montagem e manutenção do experimento. Nesse meio tempo, eu pude voltar ao projeto que mais me interessa, o sistema de seleção de eventos do ATLAS, o qual, atualmente sou um dos principais desenvolvedores de software.
Sou casado desde outubro de 1999 e nosso primeiro filho chegou a dois anos atrás. Uma segunda esta programada pra março do ano que vem.
CACP: Dr. Denis, como tem sido o envolvimento do Brasil nesse projeto tão grandioso?
Dr. Denis: O Brasil tem sido um grande colaborador apesar dos recursos disponíveis limitados. No ATLAS a colaboração é tão antiga que nem eu mesmo sei quando exatamente começou. O meu orientador de tese, o professor Jose Manoel de Seixas da UFRJ já estava no CERN em 1993, se eu não me engano. Atualmente, temos pesquisadores nas áreas de engenharia (especialmente da computação ou eletrônica) e física trabalhando no desenvolvimento do detector ou na parte de fenomenologia física do ATLAS. Pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora e de São Paulo juntaram-se recentemente ao ATLAS. A UERJ tem uma colaboração forte com o experimento CMS assim como o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF - no Rio) tem uma colaboração com o experimento LHCb. Finalmente, a um ou dois anos atrás apareceu um grupo de Campinas trabalhando no experimento ALICE (mas pra ser sincero, não sei se essa colaboração continuou). Recentemente, foi criada a Rede Nacional de Física de Altas Energias (RENAFAE) com o objetivo de organizar um pouco esses diferentes esforços. Ainda não me parece muito claro o resultado deste instituto, mas a criação do mesmo é, por si só, um passo importante pra pesquisa brasileira.
CACP: Então a pergunta que não quer se calar – O LHC pode destruir o nosso Planeta como alguns acreditam? Seria o fim do mundo?
Dr. Denis: De forma alguma. Se o tipo de evento que nos vamos criar de forma artificial fosse perigoso, se, por exemplo, criasse um buraco negro que engolisse todo o planeta, o planeta já tinha desaparecido muito antes. Os eventos que nos vamos criar atingiram, se atingir, a energia de 14 x 10^12 eV (electron-Volts, uma medida de energia da física de altas energias). Ora, todos os anos muitas partículas com energia muito superior a esta (10^19 eV, ou seja, 10 milhões de vezes mais) atingem a nossa atmosfera (cerca de 1 partícula por Km2 da superfície terrestre por ano). A única diferença e que fazendo esses experimentos de forma controlada, podemos estudar seus subprodutos em maior detalhe (o que é impossível de se fazer na atmosfera...). Assim sendo, se ocorre na natureza, não ha razão para maior preocupação da população em geral.
É verdade que algumas teorias prevêem a possibilidade de se formar minúsculos buracos negros. Os mesmos emitiriam partículas e se dissolveriam antes mesmo de poder causar qualquer dano. Uma vez mais, isso não seria nada que já não aconteça na natureza.
CACP: Se os fatos são claros quanto a impossibilidade da destruição do nosso planeta ou de alguma catástrofe, por que há cientistas afirmando o contrário e com tanta veemência?
Dr. Denis: O Laboratório americano para o qual eu trabalho sofreu o mesmo tipo de pressão quando, graças a altíssima concentração de partículas (lá o mais importante não é a velocidade ou energia da partícula, mas a quantidade de partículas num volume pequeno). Dois pesquisadores do Havaí também fizeram o mesmo alarde. A impressão que da é que são pessoas interessadas em aproveitar a "onda" de publicidade que esta acontecendo. Com relação ao LHC, graças a publicidade extra advinda do livro/filme "Anjos e Demônios", estamos sofrendo uma pressão muito maior. Ainda mais que o livro fala em destruição causada por um "aparato" criado pelo CERN. Na verdade, esse aparato por si só não tem menor sentido. Foi criada até uma pagina no CERN para explicar para a sociedade que muitas das premissas do filme são muito interessantes na ação do filme em si, mas não tem qualquer embasamento cientifico. Quando da inauguração do experimento LEP (nos anos 80 no CERN), apenas as pessoas realmente interessadas tinham acesso a essa informação. Apesar de grandes incertezas, não houve nenhuma discussão a esse respeito na época (que eu saiba. Estava na escola nessa época!).
Outro ponto que também chama muito a atenção é o fato da partícula que estamos a procura, o Boson de Higgs, ter sido apelidado de a "partícula de Deus". Creio que o apelido foi criado primeiro porque dada a dificuldade de encontrar a partícula (o antigo LEP já a procurava), lembra um pouco a procura do cálice sagrado ou algo do gênero. Bem, a tal partícula é difícil mesmo de se achar (e alguns acham mesmo que ela não existe), despertando a curiosidade. A segunda razão, parece-me, pode ter sido para trazer mais publicidade para o tópico. O problema é que, ao misturar ciência e religião, dadas as paixões que despertam ambos os tópicos, podemos acabar numa discussão muito além da questão exata de se encontrar ou não uma entidade com sentido físico.
CACP: O Dr. Walter L. Wagner afirma que os mini buracos negros formados no interior do LHC irão se agrupar e assim juntos formarem um grande buraco com força suficiente para engolir a Terra – teria isso alguma possibilidade?
Dr. Denis: Não conhecia o nome desse pesquisador e suas teorias. Li algumas de suas teorias da internet, aonde todas estão muito bem divulgadas e com seu nome referenciado. Não conheço toda sua obra assim, pode ser um pouco injusto julgar. Me parece, entretanto, que o argumento que tal tipo de evento acontece de forma não destrutiva na natureza sobrepõem seus argumentos para tentar achar um buraco (negro?!) na teoria. Os eventos que estaremos gerando no LHC são raríssimos (mesmo durante as mais intensas colisões as probabilidades que um evento de buraco negro ocorra é bastante baixa) e tais eventos acontecem de forma independente entre si (alguns centímetros de distancia). Assim, a possibilidade que numa mesma colisão dois buracos negros se formem de forma próxima suficiente para que eles se agrupem em escala não microscópica e que isso possa representar algum risco é realmente desprezível.
CACP: Quais os avanços que essas novas descobertas da física poderão, de maneira pragmática, trazer para a sociedade como um todo?
Dr. Denis: Eu sempre respondo esse tipo de pergunta pensando no começo do século 20. Nessa época, pesquisadores como Rutherford bombardeavam finas folhas de metal (ouro) com partículas alfa vindas da decomposição de matérias radiativos, como, por exemplo, o Urânio. Na verdade, esse pesquisador estava fazendo uma das primeiras experiências tais com as que fazemos atualmente. O Urânio, ao emitir diferentes tipos de partículas durante sua desintegração, funciona como um acelerador natural de partículas. A folha de Ouro, funciona como um detector de partículas. Graças a uma experiência a principio sem muito sentido pratico direto como esta, obteve-se uma compreensão profunda do modelo atômico (um núcleo ao centro com elétrons girando a volta). Dai partiu-se para um controle maior dos elétrons em si e dai chegamos (cerca de 40 anos depois) ao transistor. Finalmente, atingimos a nossa sociedade da era da informação que temos hoje em dia. Assim sendo, a pergunta em si me parece um pouco difícil. A verdade é que todo aumento de conhecimento é benéfico, mesmo que só o seja daqui a 40, 100, 200 anos. Para não deixar, entretanto, de dar uma resposta mais concreta, posso citar algumas das pesquisas ou instrumentos desenvolvidos no CERN é que tiveram conseqüências praticas na vida de todos. O mais famoso é o sistema de paginas da internet. O WWW. Foi inventado aqui no CERN com o objetivo de facilitar a comunicação de pesquisadores dispersos no mundo todo através dos Hyper-Documentos. Não acho necessário comentar o impacto desse desenvolvimento na vida de todos. Mais diretamente ligados a pesquisa em si, saiu um artigo recente sobre a utilização de pequenos aceleradores de partículas em clinicas de tratamento de câncer. Um feixe de partículas com energias mais altas é capaz de queimar melhor e de maneira mais precisa um material. O alvo fica mais bem definido em mais alta energia.
Da parte de detectores, posso citar que as mesmas técnicas usadas para detectar partículas interessantes na grande densidade de partículas produzidas a cada colisão do LHC (por exemplo, as técnicas usadas no detector de silício do ATLAS) estão sendo usadas atualmente para realizar radiografia digital, com implicações médicas importantíssimas. O mesmo é feito pelo detector de pixels que esta sendo usado num projeto de tomografia computadorizada. Junto com técnicas de PET-scan, podem ajudar a isolar tumores facilmente e de maneira menos intrusiva. Existe ate um projeto para se criar um olho artificial que poderia ajudar deficientes visuais a voltar a enxergar.
Além de todos estes exemplos (eu realmente tentei resumir ao Máximo), a simples formação de vários pesquisadores (como eu, por exemplo), já é muito importante. Muitos vão trabalhar em pesquisa médica tecnológica e até no mercado financeiro. Essa talvez seja a contribuição de maior importância pró - experimentos: aqueles que não ficaram trabalhando no mesmo, mas levaram a experiência acumulada.
CACP: Suas considerações finais:
Dr. Denis: Espero ter ajudado a divulgar a informação importante de que a pesquisa realizada no CERN é uma pesquisa benéfica pra humanidade e livre de riscos. A nossa própria segurança (nos que estamos na linha de frente desses instrumentos de pesquisa) é um fator que não é de forma alguma negligenciado. É natural, dadas as ambições e também as esperanças depositadas nesse experimento, que certa ansiedade apareça. É também uma característica humana que o medo do desconhecido leve a atitudes extremas. Espero que o maior problema que tenhamos seja realmente algumas noticias de jornal que logo serão esquecidas quando os resultados começarem a aparecer.
Dado o longo tempo que levei pra responder estas perguntas, posso dizer que o acelerador foi finalmente ligado em fins de Novembro e embora tenha operado a baixíssima energia como previsto para o inicio da operação, já tivemos vários eventos sendo detectados pelos nossos detectores. O acelerador foi parcialmente desligado em fins de dezembro já que o CERN não funciona durante o Natal/Ano Novo. A experiência deve retornar em mais alta energia em meados de fevereiro.
Um grande abraço, Denis Damazio
O CACP agradece a sua entrevista.
Fonte: [CACP]
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